Por Clara Days 
Palavras-chave: Espiritualidade; intuição; silêncio; receptividade.
Com a Sacerdotisa (designada como Papisa no Tarot mais ancestral) vem a força da espiritualidade encarada como Princípio Feminino Universal, no sentido de representar a intuição, a passividade e a receptividade. A energia que nos inspira pede então interioridade e silêncio, para que o que está dentro de nós se possa revelar.
Há duas cartas que representam a Mulher, entre os arcanos maiores do Tarot, como duas outras representam o Homem. Temos a Sacerdotisa, arcano 2, complemento feminino do Mago (masculino, arcano 1), ela feita de espiritualidade passiva, enquanto que este outro representa o poder da vontade transportado para a acção. Mas há também a Imperatriz (3), como Mãe – fértil, natural, em perfeita conexão com os ciclos da vida – que faz par com o Imperador (4) – paternal no sentido tradicional da responsabilidade com autoridade.
Digamos que o entendimento da dicotomia feminino-masculino, nas cartas de Tarot, se aproxima muito da filosofia tradicional chinesa na concepção da dualidade Yin e Yang: a mulher Yin, do lado passivo, frio, receptivo, mais irracional; o homem Yang, activo , quente, interventivo, mais racional. O Ar e o Fogo serão Yang, a Terra e a Água Yin, e é pela acção conjunta de todos que é possível a vida. Nesta acepção, o Mago representará o Ar, o Imperador o Fogo, a Imperatriz a Terra e a Sacerdotisa será Água.
Voltemos então a esta carta, o Arcano Maior 2: a Sacerdotisa está ligada ao eu interior de cada um de nós, representando um tempo de meditação e fechamento, onde a intuição substitui as palavras. Por outro lado, há nela uma disponibilidade receptiva para perceber, vinda de fora, não a comunicação formal dos outros, antes a comunicação não verbal ou a energia íntima com que eles se revelam.
A Sacerdotisa sabe o sentido profundo das coisas, sem precisar de explicá-lo. A sua energia paira entre a matéria e o espírito, tranquila, em meditação e intimidade.
As imagens das cartas remetem necessariamente para uma oficiante religiosa de grande poder. Tradicionalmente estava trajada como um Papa no feminino. Mas a relação que a partir do séc. XX associa o Tarot a outro tipo de correntes filosóficas, ou culturas, torna os recursos visuais para caracterizar esta personagem muito mais variados: a solenidade das vestes referencia-se a diversas religiões ou rituais, a presença frequente do Crescente ou da Lua Cheia, o véu ou cortina que separa o visível do invisível, o símbolo chinês da energia Yin-Yang, o uso recorrente da cor azul como símbolo de noite e mistério. A pose é geralmente de concentração focada, de inacção.
A Sacerdotisa está associada astrologicamente à Lua, planeta que representa a carência e a vida emocional. A letra hebraica que lhe corresponde é GIMEL ou GUIMEL, a recompensa. O 2 é o número da sensibilidade, da intuição, da ponderação e do conhecimento. O título esotérico deste Arcano Maior é “A Dama do Eterno”.
Espera-nos então uma semana que pede conexão com o nosso eu interior, onde a passividade e a intuição serão mais importantes para o nosso equilíbrio do que a acção ou a intervenção. Há que aceitar o estado das coisas, não porque se lhes reconheça perfeição, mas porque há um trabalho íntimo que cada um precisa de fazer e que não é de reflexão propriamente dita, mas de meditação.
Meditar é ser capaz de esvaziar o pensamento, de libertar a nossa mente do que nos interessa ou aflige para apenas estar e sentir. Há neste exercício um grande poder de repouso e pacificação interior. Pode ser feito através de diferentes métodos mas essencialmente visa a libertação íntima que vem da neutralização das nossas ideias.
Sejamos capazes de nos isolar da lufa-lufa do quotidiano e criemos tempo íntimo e pessoal, para apenas estar.
Intervalemos.
O nosso espírito precisa de paz e silêncio para poder respirar…
Imagem : Tarot Naibi de Giovanni Vacchetta, 1893

Clara Days 

Anúncios