Por Clara Days:
Palavras-chave: Integração; combinação; moderação; conciliação.

Aproxima-se a Lua Nova de Leão e temos para nos inspirar, esta semana, a Temperança, ou Arte, Arcano Maior número catorze.
Ora, estando as origens do baralho de Tarot, tal como ainda hoje é usado, impregnadas da cultura cristã-católica da Idade Média europeia, há entre os Arcanos Maiores várias cartas claramente associadas aos preceitos e ao imaginário dessa matriz cultural-espiritual. Assim surge a Temperança, a partir de uma das virtudes cardinais do cristianismo, juntamente com a Prudência, a Fortaleza e a Justiça – sendo que estas duas últimas também constam como Arcanos Maiores no baralho tradicional do Tarot. Nesta acepção, viria a Temperança advogar a “domesticação” dos instintos e o controle das paixões, propondo contenção e controle nas atitudes e comportamentos, como uma forma de elevação espiritual.
Esta visão foi sendo ultrapassada e vai-se alargando, na evolução do Tarot até ao presente, e outras matrizes filosófico-espirituais referenciam-se a outras simbologias, como, por exemplo, a Alquimia. Esta surge claramente no Livro de Thoth de Alistair Crowley (1944), onde este Arcano passa a ser designado como Arte e associado aos princípios fundamentais alquímicos, como sendo a mistura certa, a combinação perfeita que junta elementos opostos e os transforma em algo novo e mais elevado. Podemos ainda referir outros baralhos, como o Osho-Zen, que lhe dá o nome de Integração.
Vem então a Temperança / Arte / Integração, numerada como 14, o último Arcano Maior do segundo septenário (dedicado aos valores do auto-conhecimento e da interiorização), de que será o patamar mais elevado. Representa o Princípio de Integração dos Opostos, que é consagrada no princípio alquímico “solve et coagula” (dissolve e combina). Foquemo-nos nesta metáfora: “solve”, dissolve, representa o que precisa de ser desagregado, desconstruído; “coagula”, combina, o que precisa de ser junto, para se fortalecer.
A Arte da Temperança será a de, com espírito conciliador, conseguir desconstruir conflitos, sobretudo conflitos internos, e recombinar os seus elementos dum modo novo, construtivo e transformador.

As representações visuais das cartas mostram-nos este Arcano Maior de duas formas, abarcando a maioria dos baralhos. Como Temperança, no sentido mais tradicional, temos a mulher ou o anjo, com uma taça ou vasilha em cada mão, fazendo transitar de uma para a outra um líquido cuja trajectória oblíqua é impossível, segundo as leis da gravidade. A substância desliza, por vezes ondulando, de um vaso para o outro. Geralmente a mulher está num cenário natural, junto de um curso de água, e tem um pé em terra, outro no rio ou lago, assim simbolizando a sua capacidade de combinar os dois elementos: a Terra, prática e concreta, com a Água, emocional e sensível. Na outra versão, como Arte, a alusão é explícita e referencia-se às práticas alquímicas. Aqui, uma mulher derrama num caldeirão duas substâncias aparentemente incompatíveis, como a Água e o Fogo, para as juntar e combinar no seu “cozinhado”. A mulher pode ter duas cabeças, duas caras – numa tradução visual do diálogo entre o seu Eu consciente e o inconsciente – e os dois elementos tornam-se um, no caldeirão / vasilha. É frequente ainda a presença dos animais de poder relacionados com os elementos que se opõem (no caso, Águia para a Água, Leão para o Fogo).
Astrologicamente, esta carta está associada a Sagitário, signo da liberdade de espírito, do saber e das viagens. A letra hebraica que lhe corresponde é SAMECH ou SAMEKH, o ciclo interminável. O número 14, que a numerologia comum reduz a 5 (liberdade), representa, na numerologia cabalística, ponderação, harmonia, autocontrole e viagens bem sucedidas. Título esotérico da Temperança / Arte: A Filha dos Reconciliadores, a Parteira da Vida.

Preparemos esta Lua Nova numa atitude moderadora de conflitos, sobretudo dos dilemas internos que nos afligem. Tentemos uma análise o mais desapaixonada possível e desconstruamos os problemas, isolando os diferentes elementos em presença, para procurar modos novos de os alinhar. Trata-se de um misto entre revisão de prioridades e mudança de paradigma.
Quanto mais profundos forem os opostos em contraste, maior é o desafio. É preciso lembrar, contudo, que é da contradição que nasce a luz, e que a mudança permanente é a condição da existência no Universo. Assim sendo, o que nos é proposto é uma forma pacífica, mas muito dinâmica, de mudar o que tem de ser mudado, conseguindo, se possível, transformar elementos que até aqui são dissonantes em algo harmonioso e belo.
Não tenhamos medo de olhar para dentro e procurar as nossas próprias contradições. Elas são geralmente fruto de vivências anteriores mal resolvidas e impregnam a nossa visão do presente, contaminando muitas vezes o que vivemos com memórias emocionais de situações parecidas. Identifiquemos esses “grumos” que nos impedem de lidar melhor com as situações e tentemos desfazê-los, ao tomar consciência deles. Depois, procuremos transformar a nossa visão das coisas, pelo exercício da recombinação.
Nem sempre está nas nossas mãos transformar as nossas circunstâncias. Mas está sempre ao nosso alcance transformar o modo como lidamos com elas. Aproveitemos a energia conciliadora da Temperança e, com a capacidade transformadora da Arte, integremos os vários elementos da nossa vida de uma forma mais positiva.

Imagem: Tarot Soprafino de Carlo Della Rocca, 1835

Clara Day

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