Por Clara Days
Palavras-chave: mudança; destino; oportunidade; ciclo.

No nosso país do fado, a relação cultural com o destino parece condenada a uma visão melancólica e determinista sobre o futuro de cada um. A Fortuna, no entanto, converteu-se, em português, num termo que significa riqueza e bons auspícios. Ora, na origem, a Dama Fortuna é a mulher que faz girar a Roda da Vida, como uma roca de fiar, e assim gera ciclos contínuos em que o melhor e o pior se sucedem, fazendo entrar em declínio os que alcançaram sucesso e também dando oportunidade de perseguir o sucesso àqueles que a vida não favoreceu ainda. Nesse perpétuo movimento, abarca os dois: o destino como fado derrotista, a fortuna como bom auspício.
Se olharmos para esta carta e fizermos dela a leitura literal, alinhamos numa visão determinista sobre a evolução da vida, com inevitáveis ciclos e contra-ciclos. É verdade que o universo e a natureza se regem por essa lei, alternando as marés, fazendo a Lua aparentar o seu esplendor total na Lua Cheia e apagando-a por inteiro na Lua Nova, renovando a natureza nas estações do ano, desde a morte aparente do Inverno à opulência festiva do Verão, passando pela Primavera como renascimento e adormecendo no Outono. Também nós alternamos sono e vigília, precisamos de repouso após um esforço, seja físico, seja mental. Há, certamente, essa procura de equilíbrio, no funcionamento das funções vitais, em que uma certa alternância é necessária à saúde e à sobrevivência.
Mas filosoficamente, num tempo de esclarecimento científico como é o nosso, uma visão determinista dos acontecimentos da nossa vida aparece como deslocada. A visão actual sobre o Tarot, a Astrologia, ou outras artes ditas “divinatórias”, quando séria e reflectida, não fala da nossa vida como uma sucessão de acontecimentos inevitáveis, antes procura entender as energias subjectivas que podem, ou não, favorecer a nossa intervenção na vida e no mundo. Mas somos nós que decidimos, não o “destino”. O “destino” é neutro, uma mera sucessão de acontecimentos ao longo do tempo.
A Roda da Fortuna, numa visão actual, é mais próxima das leis do karma do que do seu significado primitivo.Isto é: os actos que praticamos, as decisões que tomamos, condicionam e influenciam o que nos sucede ao longo do tempo. Teremos, certamente, épocas mais difíceis e tempos mais serenos. Mas o modo como lidamos com eles pode reforçar-lhes as características ou adoçar-lhes os contornos, é mesmo possível manter o optimismo activo durante uma crise, ou sabotar um tempo feliz com atitudes destrutivas.
Muitas vezes, as nossas circunstâncias evoluem independentemente da nossa vontade. Mas temos, dentro dessas condicionantes, o poder de tomar diferentes decisões. Temos o poder íntimo de “girar a roda” das atitudes que tomamos, do que queremos valorizar, das prioridades que definimos. E isso, em última análise, influencia as circunstâncias, dá-nos alguma dose de margem de manobra.

O mito da Fortuna vem da cultura romana, estando presente em diferentes épocas e povos, na Europa. As imagens, nas cartas do Tarot, começam por corresponder às representações da tradição europeia da Roda que era girada pela Dama Fortuna, que estava geralmente vendada. Semelhante a uma roda de fiar mais ou menos grande, nela estão pendurados, empoleirados, agarrados diferentes tipos de personagens, que podem pertencer a um bestiário simbólico ou real, ou serem seres humanos. Neste último caso, vê-se nos que ascendem a positividade do movimento, os que estão no topo mostram a glória, os que caem o desespero e os que estão em baixo o desfalecimento ou o esforço supremo. Com o evoluir das representações, a mulher desaparece, dando lugar à Roda-objecto como elemento central. É frequente a presença dos “animais de poder” que representam os quatro elementos primordiais, ou as quatro “funções psicológicas”: Touro, Leão, Águia, Anjo (respectivamente: terra, fogo, água, ar – sensação, emoção, intuição, pensamento). Referências à sucessão das estações do ano são recorrentes, em baralhos recentes. Surge com várias designações: Roda da Vida, do Tempo, do Ano,são as mais comuns..
A Roda da Fortuna, arcano maior 10, está astrologicamente associada a Júpiter, pai dos deuses, protector e indulgente. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial, também a mão fechada, ou punho. O número 10 é a base de estruturação do nosso sistema numérico. Na numerologia comum, ele reduz-se ao 1, o início; na cabalística, significa êxito, ascenção, actividade. Título esotérico da carta: “O Senhor das Forças da Vida”.

Nesta semana de fim de Verão, a energia que nos inspira fala de um olhar sobre a evolução dos acontecimentos da nossa vida, que nos dá a oportunidade de tomar (ou não) as decisões possíveis que podem vir a ter impacto no que se vai suceder. É um tempo em que a mudança parece inevitável, mas é um contínuo, não uma ruptura. E essa trajectória reflecte, de algum modo, as nossas decisões passadas, com o potencial para condicionar as decisões futuras.
Não temos a vida na mão, as circunstâncias em que a vivemos dependem de múltiplos factores, alguns inevitáveis. É importante que sejamos razoáveis e não queiramos esgotar-nos a lutar contra a inevitabilidade de certos acontecimentos. Mas há sempre algo que podemos fazer, por nós.
Viver na Roda da Vida não é como andar enrolado num turbilhão de água e areia, numa praia de mar bravo. Há uma dose de previsibilidade em muito do que nos vai acontecendo, a experiência e a intuição ensinam-nos a distinguir e lidar com isso. Há sempre também os imponderáveis, que vão surgir pelo caminho, queiramos ou não.
Levemos muito a sério as decisões que tomamos, no sentido de as orientarmos para um futuro melhor e não apenas para reagir ao presente. Podemos, ou não, assumir atitudes ou tomar medidas preventivas ou condicionantes, para que a vida se conduza de um modo mais produtivo e positivo. Usemos esse poder, para tomar nas mãos o destino.

Imagem: Tarot suiço de Johannes Müller (1860)

Clara Days

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