Clara Days

Palavras-chave: entrega; espera; transcendência; altruísmo.

A ideia de sacrifício tem sempre acompanhado este Arcano Maior. Mas a espera a que ele corresponde não é uma expiação, antes um tempo de contemplação e maturação. Nessa medida, não é sacrifício – é transcendência.
O Dependurado corresponde a momentos da vida em que as circunstâncias onde estamos inseridos não permitem a nossa intervenção, ou em sabemos que esta não será benéfica. Assim, afastamo-nos e pomo-nos numa posição de observação e espera. Por muito que pudéssemos dizer, escolhemos calar-nos. E não é porque queiramos ver os acontecimentos descambar ou assistir a algum sofrimento alheio; é porque não está ao nosso alcance intervir dum modo positivo ou construtivo. Assim, transcendemos os nossos impulsos de acção e posicionamo-nos como actores passivos, por muito contraditória que esta definição pareça.
Certamente, para quem é impulsivo por natureza, haverá uma dose de sacrifício. Mas a postura do Dependurado está enraizada numa consciência clara dos nossos limites e constrangimentos e, assim, há uma forte justificação interna para a passividade exterior.
No entanto, esta passividade é sobretudo aparente, porque a imobilidade suspensa do Dependurado corresponde a uma posição privilegiada para ver e reflectir, encontrando novos ângulos de abordagem e facilitando a gestação de novas e diferentes soluções. Quando eu sei que sou apenas observador, vejo mais, oiço mais, estou mais atento, penso melhor.
Para esta carta foram encontradas diferentes designações. Em português há uma tradução incorrecta para Enforcado, o que nada tem a ver com a essência da carta, onde a personagem está suspensa por um pé. Crowley afirmou que o Arcano 12 se teria chamado “Afogado” (pela sua ligação ao elemento Água), o Tarot de Osho Zen designa-o como “A Nova Visão” e outras escolhas e baralhos usam designações como “Apostolado”, “Reversão”, “Provação” ou “Traidor”.

Nas imagens das cartas, através dos tempos, vemos um homem suspenso por um pé, de cabeça para baixo, numa postura que parece incómoda, mas com uma atitude e expressão visual de paz ou mesmo de êxtase. Há algo de visualmente simbólico na situação e na postura adoptada: o laço que prende o pé, gerando uma configuração de cruz egípcia, ou a serpente (princípio criativo e destrutivo) que nele se enrola; a forma como as pernas se cruzam, gerando o desenho de um 4; os braços imobilizados nas costas, ou pregados em crucificação invertida; por vezes, sobretudo nas versões mais ancestrais, a presença de elementos do mundo material (sacos de dinheiro) que segura e deixa pender em direcção ao chão. É fácil estabelecer comparações com posturas de martírio, mas a linguagem corporal da personagem contraria de certo modo esta noção, realçando a sua característica voluntária.
Astrologicamente, o Arcano Maior 12 está associado a Neptuno, planeta de espiritualidade e transcendência, ou ao elemento Água, da vida emocional. O seu número 12 é escolhido, em diferentes épocas e civilizações, para organizar estruturas espácio-temporais (12 meses do ano, dia de 12+12 horas, ciclos de 12 anos na astrologia chinesa…). A letra hebraica que lhe corresponde é MEM, a fonte da sabedoria, também o Mar. O seu título esotérico: O Espírito das Águas Poderosas.

A mensagem inspiradora para esta semana, com o Dependurado, sugere que aceitemos a natureza das coisas, bem como a nossa própria natureza, e que tenhamos a sabedoria de saber esperar. É inútil interferirmos naquilo que não podemos resolver ou melhorar. Não se trata de assumirmos um papel de vítima, muito pelo contrário: trata-se de transcendermos os impulsos iniciais e assumirmos uma atitude favorável à geração de novas soluções, que ainda não soubemos encontrar.
Estar parado é mais difícil do que andar, para aqueles que não querem ficar apenas à espera do que a vida lhes traga. Estar parado exige equilíbrio e concentração. E estar suspenso numa posição invertida mostra-nos uma realidade diversa, de pernas para o ar. Tudo isto nos permite ter uma nova perspectiva, no espaço, e fazer uma reflexão mais profunda, no tempo.
O Dependurado prepara-nos para dar a volta à luta da vida, mais conscientes e capazes. Não é um tempo de descanso, é um tempo de transcendência. Testamos a nossa paciência, controlamos os nossos impulsos, sujeitamo-nos ao desconforto, tudo isto por um bem maior: a solução que iremos encontrar.
Agora, é parar para ver, ouvir e reflectir. A seu tempo, as certezas desenhar-se-ão e o caminho por onde seguir será mais claro e definido. Vale a pena a espera.

Imagem : Tarot Gringonneur ou Charles VI (séc. XV)

Clara Days