Por Clara Days:

Palavras-chave: Intuição; medo; ilusão; imaginação.

A Lua do Tarot pode comparar-se a um oceano: profundo, misterioso, ora calmo, ora agitado, no permanente ciclo das marés. Ela está relacionada com o nosso lado irracional / intuitivo, um lado sombrio que nem sempre somos capazes de iluminar. Guarda os medos, as inseguranças, aquilo que sabemos sentir, mas que não queremos ou não podemos enfrentar. Carrega os segredos do elemento Água, dos sentimentos e emoções
Entre os Arcanos Maiores do Tarot, no terceiro septenário (que corresponde à nossa relação com o que é universal, transpessoal ou transcendente), há uma sequência de três arcanos “celestes”: o 17 – Estrela, o 18 – Lua e o 19 – Sol. A primeira mostra um caminho espiritual, que nos dará orientação; o último permite a afirmação da nossa identidade, dando-nos iluminação. Entre estes dois, a Lua pede uma viagem interior, mas, enquadrada nesta sequência, digamos que mostra como por dentro somos um reflexo do que se passou fora e que nos influencia, a um nível subconsciente, ou marca o nosso inconsciente.
Não é fácil seguir o caminho da Lua. Não é fácil confrontarmo-nos com o que nos dói e que tentámos esconder, para esquecer a memória dessa dor. No entanto, a dor lá fica, pulsando, gerando perplexidades e medos. A Lua inspira-nos para nos conheçamos e consolemos, pois só reconhecendo as nossas mágoas conseguiremos ultrapassá-las.
A Lua do Tarot rege também as ilusões e fantasias, o nosso lado mais poético. Guarda a infância dentro de nós, para o bem e para o mal, com os seus sonhos, medos, segredos.
O Tarot de Osho Zen chama a este Arcano 18 “Vidas Passadas”, outros intitulam-no com designações como “Crepúsculo”, “Anseio” ou “Ilusão”.

As imagens desta carta nos baralhos mais antigos associam a Lua-astro a personagens terrenas: no Tarot Visconti-Sforza (1451) ela tem dimensões reduzidas e está na mão de uma mulher, no Gringonneur ou Charles VI (1455) dois astrónomos parecem estudá-la, manipulando o compasso das medições celestes. A representação dos estudiosos dos astros permanece como uma constante minoritária, até aos nossos dias. Mas, a partir do Tarot de Marselha (1760), o aspecto da carta passou a conter elementos que têm sido recorrentes: uma Lua com perfil de rosto humano parece atrair lágrimas de várias cores vindas da terra; cá em baixo, dois cães mostram na sua atitude corporal que estão atentos a ela, ou a uivar-lhe; ao fundo há duas colunas, uma branca, a outra preta, que enquadram lateralmente a imagem; em baixo, água de onde sai um lavagante, ou caranguejo. Diferentes versões deste conjunto de elementos são o que predomina na grande maioria dos baralhos produzidos desde então, e ainda hoje, embora na modernidade o recurso a este esquema estereotipado possa surgir substituído por simbologias ou influências mais diversas.
Curiosamente, a Lua do Tarot corresponde ao signo de Peixes, fim do ciclo anual do Zodíaco, que nos permite a transcendência. A letra hebraica que lhe corresponde é KOPH, ou KUF, um ciclo de tempo. O seu número 18, na numerologia cabalística, representa imaginação, instabilidade e algo oculto. Títulos esotéricos deste Arcano Maior: “O Regulador do Fluxo e do Refluxo” ou “A Criança dos Filhos do Poder”.

Espera-nos uma semana em que poderemos sentir-nos confusos ou sonhadores, no sentido de aparentemente desligados do mundo exterior. Será um tempo onde poderemos mais facilmente aceder ao nosso lado escuro ou oculto, procurando para cada sombra a fonte de luz que a gerou.
Confrontar os nossos segredos e os nossos medos pode parecer um exercício assustador, e tendemos a procurar esquecer que eles existem. Mas estão lá, à espera de ser entendidos, quando a luz nos permitir ver a realidade dos papões das nossas trevas e descobrir que são, na verdade, ecos de memórias, pedaços esquecidos, que se agigantaram por não terem sido processados.
Sem luz, não há sombra. A sombra define a luz…

Imagem : Tarot Fantastic Menagerie, baseado nas ilustrações de JJ Grandville (séc. XIX)

Clara Days