Por Clara Days:

Palavras-chave: iluminação; absolvição; reparação; renascimento

Chegou o momento em que o passado deve ser revisto e podemos perspectivar a vida em novos moldes, reparadores e renovadores. Na semana passada, o Sol, Arcano 19, deu-nos o amor próprio para nos expandirmos. Com o Julgamento/ Eão, Arcano 20, continuamos esse processo de aperfeiçoamento pessoal, no caminho da compreensão do nosso lugar merecido, dentro da harmonia universal.
O Julgamento, designado por Crowley como Eão, permite que elevemos a nossa visão sobre o que temos sido até aqui, numa atitude auto-crítica construtiva, onde recebemos do passado as lições e as consequências pelas nossas decisões e actos, não para os repetir, antes para os iluminar, reparar e, assim, podermos renascer. Será o momento para definir novas metas, encontrar novos caminhos e um propósito mais elevado ou mais conectado com a nossa verdadeira essência.
É o fim de um ciclo kármico, onde daquilo que demos e fizemos recebemos a paga, num processo dinâmico de acção / reacção. A sabedoria reside em integrar essa aprendizagem como fundação do ciclo seguinte, como a génese de uma nova era pessoal.
A tradição mais antiga do Tarot europeu remete-nos para o Juízo Final bíblico, onde os mortos ressuscitam das suas tumbas, as nações são julgadas e se inicia o Reino de Deus. Há aqui uma noção de fim, também de recompensa ou punição definitivas.
A escola de Crowley, mais recente e consentânea com o ideário contemporâneo, ao escolher a definição “Eão” ou “Aeon”, usa um termo que deriva da mitologia grega, na sua apropriação pelos gnósticos, designando a série de poderes espirituais evoluídos por emanação progressiva do Ser Eterno, que constituem o próprio mundo espiritual. Foca-se assim, alternativamente, na elevação que pode advir dum tempo de retrospectiva, orientando-nos para o futuro, para a “ressurreição” simbólica.
Outras escolas e baralhos atribuem a este Arcano Maior títulos como “Além da Ilusão”, “Ressurreição” ou “Renascimento”.

As cartas remetem maioritariamente para a imagética do Juízo Final, com os anjos a tocar as trombetas celestes e os mortos a sair das suas sepulturas. Mas há representações mais relacionadas com a simbologia da metamorfose e do renascimento, recorrendo a animais como a borboleta ou a mítica fénix, ou com a dinâmica entre o velho e o novo, mostrando crianças e adultos em inter-relação. Alguns baralhos usam ainda, em alternativa às personagens humanas, elementos botânicos – flores que brotam ao tocar das trombetas, por exemplo – ou o arco-íris.
Astrologicamente, a carta referencia-se a Plutão, planeta da transmutação e da regeneração. A letra hebraica que lhe está associada é SHIN ou SIN, o aperfeiçoar da consciência. Na numerologia cabalística, o 20 surge associado aos conceitos de novas revelações, reparação e progresso. Título esotérico deste Arcano Maior: “O Espírito do Fogo Fundamental”.

É tempo de colher o que semeámos e com essa colheita construir bases para o futuro. Precisamos de ser honestos em relação ao nosso passado, de aprender com ele e nos perdoarmos. Vivemos um momento em que o balanço pessoal nos pode estar facilitado, façamos esse exercício do modo mais profundo que consigamos.
O importante é que as novas metas que possamos definir para o nosso caminho nos encaminhem num rumo mais elevado, em direcção a um propósito maior. A energia do Julgamento inspira-nos e seria um desperdício empregá-la apenas em decisões comezinhas.
Ter, no final do destino que antevemos, um propósito de sentido maior para a nossa vida, dá-nos a força e a endurance necessárias, para fazer o percurso.
Podemos viver rumo à nossa Utopia. Como disse Sebastião da Gama, lembremos:
“Pelo sonho é que vamos
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.”

Imagem: Tarot Dreaming Way, de Kwon Shina e Rome Choi, 2012

Clara Days