Por Clara Days:
Ideias-chave: entre a tradição e a renovação; pertença e renascimento em perspectiva; seguir a regra, mas mudar de vida.
Continua o Mundo a pôr-nos no balanço entre passado e futuro, agora com enfoques diferentes, pois a presença conjunta do Hierofante e da Morte põem em confronto atitudes que podem ser profundamente contraditórias: o ajustamento à regra para garantir a pertença ou o corte radical com o que nos pesa para permitir renovação. Como vamos compatibilizar isto? Ou não?
Com o Hierofante sentimos o peso da cultura, da ideologia e da tradição a fazerem-se sentir, lembrando-nos que são o preço que pagamos para sermos aceites e acolhidos pela comunidade a que pertencemos ou queremos pertencer. Por muito livre-arbítrio que possamos usar, o sentido de colectivo impõe-se-nos sempre de certa maneira, com maior ou menos relevância, pois somos naturalmente seres sociais que precisam dos outros para se sentirem bem. As regras vêm então como o cimento que une todos os que fazem parte da mesma comunidade, e sujeitamo-nos a elas, ou corremos o risco de ser excluídos.
Mas a Morte, por seu lado, é aquele Arcano Maior tradicionalmente assustador que, embora não se refira a um fim inexorável, nos atira para a necessidade de largar tudo o que não faça sentido no nosso presente, pois há uma profunda renovação em curso. Isto tanto pode ser válido para a vida pessoal como para a colectiva, impondo o fim como condição de renascimento, o que é uma lei natural da vida.
A dinâmica entre estas duas tendências, com a tradição, por um lado, e a necessidade de renovação profunda, pelo outro, pode criar contrastes mais ou menos profundos que nos deixem em indecisão, ou mesmo em confusão. Ora, sobre estas energias paira a continuidade dum Mundo, recorrente nestas leituras recentes, e o Mundo quer que ponhamos em perspectiva a nossa vida para rematar e resumir o que está para trás e preparar o salto para a frente. É como se esta presença valide, num estado de consciência já complexo e finalizador, a mudança que a Morte pede.
Recapitulemos: a Morte quer uma mudança que é radical, porque exige renovação profunda, com o corte com o que não serve; o Mundo põe-nos numa etapa de transição que pode ser maior, para um novo período de vida; mas o Hierofante impõe uma restrição que é a do colectivo a que pertencemos, com as suas regras e tradições. E é entre estas tendências que nos posicionamos, com as nossas circunstâncias e contradições pessoais, mais ou menos transicionais, mais ou menos comprometidas.
Na minha opinião, é de apostar na transformação, ainda que relativizada pelo peso social. Aproveitemos a força da Morte para nos libertar do que não presta e que nos tem atrasado a viagem, sobretudo isso – porque a mudança, a mais curto ou longo prazo, é inevitável.
Uma boa semana para todos nós!
Imagem : Pre-Raphaelite Tarot, de Luigi Costa e Lo Scarabeo, 2019

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