Por Clara Days:
Palavras-chave: instinto; tentação; compulsão; independência.

O Diabo chama-nos ao nosso corpo físico, aos instintos. Ele não aceita ser obediente, segue o seu o percurso, se necessário a sós, sem olhar para o lado. A irracionalidade do Diabo acorda alguns medos, pois ele quer levar a sua avante sem restrições, aceitando correr riscos, ainda que para resultados imprevisíveis, ou mesmo desastrosos.
A principal característica que este arcano invoca é a independência. Lúcifer, que etimologicamente significa “o que traz a luz”, foi o arcanjo que decidiu não querer obedecer: Non servam! Fomos ensinados a vê-lo como perverso mas podemos abordá-lo, simbolicamente, por outro prisma: ele escolhe seu o caminho com liberdade de espírito e ousadia, de peito aberto para o que der e vier. Não aceita ser mandado e está disposto a tudo, até a falhar.
A energia desta carta está por trás dos grandes feitos da humanidade que desafiaram os dogmas e abriram o caminho da Ciência, de cada cientista que arriscou buscar uma resposta diferente e que pôs em causa o que era tido por certeza. Há aqui uma ousadia convicta, que pode partir duma mudança de olhar para uma viragem radical.
No entanto, há um lado que não deixa de ser importante referir: o Diabo é também a carta das compensações, da busca de formas de alívio ou recompensa através de meios, substâncias ou atitudes que acabam por aprisionar. Representa os condicionamentos e as dependências.
Focando-nos no seu lado mais primário, digamos que o Diabo segue os instintos – sexual, de preservação, de defesa, gregário. Na sua dimensão espiritual, ele não aceita servidão e prefere um caminho duro e solitário, desde que a definição do rumo seja a sua. O paradoxo é este: sendo independente de espírito, acaba por poder depender dos seus instintos primários e procura recursos de sobrevivência que o amarram. Entre a rebeldia perante os outros e a submissão aos seus comportamentos irracionais, oscila este Diabo.
Esta carta tem representações visuais que a ligam à iconografia tradicional da figura: meio homem, meio besta, com cascos ou garras, cornos, cauda, asas de morcego, barbicha de bode. Junto a si estão, em muitas versões de diferentes baralhos, duas figuras humanas, um casal, acorrentadas – mas as correntes estão frequentemente frouxas, sugerindo que podem libertar-se. Não há muita imaginação, nem grande variedade de opções gráficas. Este Arcano 15, O Diabo, aparece-nos representado com toda a panóplia que a tradição judaico-cristã lhe atribui.
A carta está astrologicamente associada a Capricórnio, um signo de terra e de gestação invisível, escondida mas imparável. A letra hebraica que lhe é associada é AYIN, o Olho, como fonte do carácter. O seu título esotérico é O Senhor das Portas da Matéria, filho das Forças do Tempo.
Esta semana tenderemos a estar envolvidos em situações que nos podem levar a reagir de modo quase irracional. Devemos estar mais conscientes, para não actuar impulsivamente, para controlarmos os nossos instintos animalescos.
Podemos esperar provas, testes à nossa paciência e calma, obstáculos a serem revelados. A parte difícil será esta: sermos capazes de ser humildes sem anular a nossa vontade.

Clara Days
Imagem: Rocca e Gumppenberg – 1835

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