Por Clara Days:
Palavras-chave: afirmação pessoal; vontade; renovação; desapego.
O Carro, Arcano Maior número 7, representa no Tarot o Princípio do Desapego. Ele transporta a energia voluntariosa que nos leva a deixar o que já não nos serve e a prosseguir caminho sem olhar para trás. É curioso que o Arcano se fixe no objecto e não na personagem, pois o Carro é o veículo, o meio, mas quem o guia é o condutor, de rédeas na mão, definindo o caminho. Como se nos dissesse que para vencermos, em situações de desapego, o meio que escolhemos seja a principal condição de sucesso.
O conceito de “desapego” está associado, na linguagem comum, a desinteresse ou falta de amor; significa também a capacidade de cada um se libertar, se soltar do que o prende. É nesta segunda acepção que nos devemos concentrar, embora a primeira possa ser o seu detonador. É quando aquilo a que estamos ligados deixa de fazer sentido, quando tomamos consciência de que estamos presos e o desejo é de que nos libertemos, que nos desapegamos. Mais do que um afastamento físico, representa a distância emocional que nos permite esse afastamento como uma libertação, carregada de energia positiva. Às vezes não precisa de implicar uma distância física, antes a desvalorização do que antes nos prendia.
Voltemos ao enfoque no objecto desta carta: O Carro chama a nossa atenção para a acção, sim, mas para uma acção controlada, dirigida e não evasiva. O Carro clama autocontrole, domínio e não deriva. Propõe uma viagem que até pode iniciar sem destino concreto, mas que é percorrida de olhos abertos, com escolhas conscientes. O guerreiro armado que conduz domina a situação e dirige os animais, em direcção ao rumo que vai determinando.
As representações visuais da carta mostram-nos um príncipe guerreiro de pé no seu carro, muitas vezes de combate. Ele conduz os animais que fazem avançar a sua viatura. Em muitos casos percebe-se que deixou atrás de si uma aldeia, um lugar a que virou costas. Os animais que conduz têm aspectos variados, desde cavalos a animais mitológicos, em número variável. O mais frequente é serem dois, cavalos ou figuras esfíngicas / mitológicas, e, recorrentemente, um de cada cor. Os animais olham frequentemente em diferentes direcções, propondo escolhas, o que está associado à busca de sentido que a carta propõe, aos caminhos que são mostrados, luz e sombra, dia ou noite. Mas o condutor, armado com o seu escudo protector, escolhe seguir em frente, decide. Está protegido pela armadura que o distancia e defende, a sua atitude é de comando e afirmação de vontade.
Curiosamente, o Carro é associado em astrologia a Caranguejo, signo de água regido pela Lua. A letra hebraica que lhe corresponde é CHETH ou CHET, a dinâmica do partir e regressar. O seu título esotérico: “O Senhor do Triunfo da Luz”.
Esta semana olhemos ao espelho e procuremos com honestidade avaliar os aspectos da nossa vida que já não nos servem, que apenas nos prendem, sem fazer sentido no nosso presente. Sejamos capazes de os deixar para trás, de encontrar um rumo novo, protegidos pelo que já aprendemos e afirmando a nossa vontade. Não precisa de ser desamor ou distância: o tempo é de desapego.
Imagem: Tarot de Thoth (Crowley / Frieda Harris)

Clara Days

Anúncios