Por Clara Days:
Palavras-chave: independência; instinto; tentação; compulsão.
A energia do Diabo está dentro de cada um de nós, nos nossos instintos mais primários: de sobrevivência, de preservação, gregário, sexual… Tem a ver com o lado irracional da nossa acção de resposta ao mundo. É indispensável para o nosso ser natural mas pode levar-nos a reagir de modo inadequado, socialmente, sendo que no Tarot tambem está associado às dependências físicas e psicológicas.
Mas olhemos para o Diabo pelo seu lado afirmativo: ele é absolutamente independente. Tomando em consideração que esta figura se radica na tradição religiosa judaico-cristá, lembremos que Lúcifer, que etimologicamente significa “o que traz a luz”, foi o arcanjo que decidiu não querer obedecer: “Non servam!” O Diabo age sem querer agradar, independentemente do que os outros possam querer aconselhar-lhe ou tentar impor-lhe. Para ele, não há limites.
O Diabo está ligado às tentações, aos actos impulsivos e sem medir consequências, podendo arrastar-nos para actividades ou substâncias aditivas. São também os desejos e ilusões que criamos e alimentamos de modo irracional e que, em última análise, nos aprisionam. Com tal energia podemos esperar provas, testes à nossa paciência e calma, obstáculos a serem revelados, enfim, assuntos que nos poderão tirar do sério.
Aleister Crowley, no seu “Livro de Thoth”, define-o assim: “Representa a capacidade de extasiar-se com qualquer fenómeno, por mais repugnante que pareça; ele transcende todas as limitações; ele é Pan, o Todo.”
A representação visual deste Arcano Maior radica-se na iconografia tradicional da figura do Diabo: meio homem, meio besta, com cascos ou garras, cornos, cauda, asas de morcego, barbicha de bode. Em grande parte dos baralhos está num trono ou pedestal, em pose de domínio. Tem frequentemente junto a ele um casal, homem e mulher accorrentados, com correntes que parecem frouxas, como que a permitir que se libertem. Noutros casos, há uma figura feminina que parece ser influenciada por ele. No entanto, não há muita variação no essencial das opções gráficas, remetendo-nos sempre ao imaginário da cultura judaico-cristã.
A carta está astrologicamente associada a Capricórnio, um signo de terra e de gestação invisível, o início do Inverno eutopeu. A letra hebraica que lhe é associada é AYIN, o Olho, a fonte do carácter. O seu título esotérico é O Senhor das Portas da Matéria, filho das Forças do Tempo.
Esta semana temos o Diabo ao nosso lado para nos guiar. Não receiem, ou talvez sim, pois é nos receios, nos medos, que ele nos vai testar. É necessário ter alguma paciência e tentar refletir antes de agir, pois será natural agirmos por impulsos e, depois, podermos arrepender-nos. Lembremo-nos sempre de respirar fundo, antes de cada decisão, tenhamos cuidado com as tentações e amarras.
E, no entanto, demos o devido crédito ao instinto, nos momentos em que este se manifeste. O instinto desenvolveu-se para nos permitir sobreviver; às vezes, é mais importante do que a voz da razão.
Por Clara Days
Imagem : Tarot de Crowley, desenhos de Frieda Harris – primeira edição em 1969 (realizado entre 1938 e 1943)

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