Por Clara Days
Palavras-chave: espera; devoção; altruísmo; sacrifício.
O Dependurado, indevidamente designado também como Enforcado, representa, entre os arcanos maiores do tarot, o Princípio da Transcendência. Ele corresponde a momentos de mudança de rumo na nossa vida em que precisamos de nos afastar, esperar e reflectir. É como um tempo suspenso, em que teremos de conseguir ver as coisas de outra maneira, por um ângulo novo, interiorizar essa visão, para depois depois sermos capazes de retomar a acção na direcção escolhida. Digamos que é como um período de trégua entre momentos significativos, traçados pelas forças de mudança da vida.
A espera é indispensável, a inacção também. O Dependurado não traz pressa nem aceita movimentação urgente, antes exige imobilidade e reflexão. Para aqueles de nós que precisamos de nos movimentar para sentir que comandamos de algum modo o nosso rumo, é um tempo de sacrifício, de sensação de impotência. Mas, realmente, não é nada disso: antes se trata de uma oportunidade que a vida nos dá para observarmos calmamente e em silêncio o desenrolar dos acontecimentos, revermos as nossas prioridades e medirmos as opções possíveis. Precisamos de transcender o ego e aceitar que não é tempo de intervir. E a observação de fora, a capacidade de acompanhar o que se passa apenas olhando, mas numa perspectiva nova (estamos de pernas para o ar…), dá-nos uma luz diferente para compreender e encontrar caminhos.
Há muito de altruísmo nesta posição suspensa, pois geralmente a nossa inacção refere-se à aceitação do rumo dos acontecimentos, à capacidade de deixar acontecer o que a vida traz àqueles que amamos, ou aos aspectos da vida que mais fundo nos tocam, sem opinarmos, sem rejeitarmos, sem tomarmos medidas de qualquer espécie. Há também aqui uma grande dose de sacrifício, pois perante mudanças iminentes tendemos a querer posicionar-nos no terreno e, aqui, o que nos é imposto é nada fazer, apenas observar e reflectir. Ele é o arcano da fé, da elevação espiritual.
Tratando-se do Arcano Maior 12, há aqui também uma relação com o dodecadenário: os doze signos, os doze meses do ano, os doze apóstolos, as doze tribos de Israel…
As imagens mostram-nos um homem suspenso por um pé, na maioria dos casos de um ramo de árvore ou de um pau duma estrutura rudimentar. Parece ser um sacrifício aceite ou auto-imposto, pois o rosto está sereno e não aparenta sofrimento. Está amarrado, muitas vezes com as mãos nas costas, e as pernas formando quase um 4 invertido, uma dobrada e a outra estendida. Em algumas versões, parece que o corpo está em cruz, de pernas abertas em ângulo e os braços, mas também pode assemelhar-se a uma cruz egípcia, em forma de T. Há sempre algo de uma postura penitente, nesta figura, que culturalmente associamos a mártires ou vítimas de suplício de diferentes situações de castigo. No entanto, há versões, desde a do Tarot Gringonneur do séc XV, que mostram o dependurado com 2 sacos (de dinheiro?) na mão, como que a ser castigado pelo seu apego aos bens materiais.
A suspensão pelo pé foi amplamente executada pelos supliciadores romanos e há testemunhos também de vítimas medievais. Há inúmeras miniaturas dos séculos XIII e XIV com reproduções de santos e mártires pregados pelos pés a uma barra elevada. A Antiguidade deixou, no entanto, testemunhos de figuras invertidas que em nenhum caso poderiam ser ligadas ao suplício, antes a uma postura ritual. Essa postura é adoptada com frequência por divindades nuas assírio-babilónicas, nos cilindros de argila que reproduzem cenas de conjunto.
Astrologicamente, o Dependurado está associado a Neptuno, o planeta da transcendência. A letra hebraica que lhe corresponde é MEM, a fonte da sabedoria. O seu título esotérico: O Espírito das Águas Poderosas. Há, nestas várias associações, uma forte ligação entre o arcano 12 e o elemento Água.
Na semana que hoje começa é-nos pedido que tentemos parar e reorganizar a nossa visão dos acontecimentos. Se há mudanças em curso, será aconselhável deixá-las correr sem a nossa interferência, mas estejamos atentos a elas para as ver com um novo olhar, que nos permita encontrar soluções diferentes.
Se houver algum sacrifício associado a este Arcano, ele só pode ser o de aceitar a natureza das coisas. Só desta compreensão poderá vir paz. Não podemos abandonar as obrigações, é certo, porém, podemos abandonar a forma como as assumimos.
Clara Days
Imagem – Tarot Charles VI ou Gringonneur (séc. XV)

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