Por Clara Days:
Palavras-chave: busca; auto-conhecimento; introspecção; caminho.
O Eremita vem trazer-nos um tempo para nos virarmos para dentro e centrarmos a atenção no nosso eu interior. Ele está entre os Arcanos Maiores a simbolizar o Princípio de Introspecção. Oferece-nos a sua lanterna para nos guiar nos caminhos nocturnos da alma, é o Sábio que orienta sem se impor, o guia natural, tranquilo, paciente. Não procura que o sigamos, e, no entanto, mostra-nos por onde podemos ir.
Inevitavelmente, com o Eremita, vem um tempo mais calado, uma necessidade de afastamento de actividades sociais que não sejam indispensáveis. Precisamos da nossa própria companhia, de silêncio e de calma. Este processo de busca interior não se faz a contra-relógio, nem no meio duma multidão ruidosa. E certamente também não precisa de bugigangas digitais constantemente manipuladas, de redes sociais a pautarem cada momento, de ecrãs luminescentes, de distracções.
A luz da lanterna do Eremita ilumina um passo de cada vez, procurando o trajecto no labirinto da nossa sombra. Pede o auto-conhecimento baseado na auto-análise, convida a que olhemos para nós próprios não para justificar, não para afirmar, mas para conhecer e aceitar. Sejamos observadores de quem somos, afastemos os filtros da culpa, do desejo de agradar, das mágoas. Ergamos a lanterna à altura de nós próprios e atentemos no que nos é mostrado: como somos, porque somos, o que nos traz a este momento do percurso da nossa vida. “Quis saber quem sou, o que faço aqui”, como nas palavras da canção.
De nós para nós, assim pede o Eremita. Um tempo para nos centrarmos. Ainda que a vida de todos dias se imponha à maior parte do que nos envolve, é possível vivê-la numa atitude interior de observação mais tranquila, executando o que é preciso sem nos deixarmos levar pela onda dos acontecimentos.
As imagens das cartas trazem-nos um peregrino, geralmente de idade avançada, transportando uma lanterna num caminho escuro. Em versões mais ancestrais pode ser uma ampulheta o que transporta, em vez da lanterna, associando-o ao tempo e não à luz. Vestido de modo despojado, geralmente como monge, pode estar curvado pelo peso da idade, ou com a cabeça oculta pelo capuz das suas vestes. Costuma apoiar-se num bastão, ou empunha uma vara, que o liga à terra. O lugar é geralmente ermo ou aparentemente inóspito e a luz da lanterna não vai longe. No entanto, a figura emana tranquilidade, na sua postura. Por vezes, surge acompanhado de um animal, um canídeo real (lobo) ou mitológico – Cérbero, o cão de 3 cabeças que, na mitologia grega, guardava a entrada no mundo “inferior”. Mas há baralhos que o associam a outros animais, numa possível alusão a Fracisco de Assis, pioneiro das ordens mendicantes. Versões recentes, mais libertas da tradição, podem mostrá-lo como um estudioso, numa biblioteca ou à secretária, em solitária função.
Astrologicamente, o Eremita está associado ao signo de Virgem, mutante de terra, onde cada detalhe é valorizado. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. O seu título esotérico: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.
Esta será uma semana para nos centrarmos, sem deixarmos de viver no mundo exterior, pois tal não é possível. A energia para esta semana é interior, pessoal, intransmissível. Temos uma proposta de viagem para fazer sem sair do lugar, sem olhar, sem falar – um encontro connosco. Temos a possibilidade de procurar o porquê e de encontrar caminhos de aceitação e pacificação interior.
Sigamos o mandamento socrático: “conhece-te a ti mesmo”. Daí virá mais paz, mais segurança, mais luz para o nosso caminho. O importante não são as circunstâncias, mas o modo como deixamos que nos afectem.
Aceitemos este desafio.
Imagem  – The Golden Tarot – Kat Black (2003)

Clara Days

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