Por Clara Days:
Palavras-chave: polaridade; complementaridade; decisão; conciliação.
Pólos opostos atraem-se, complementando-se e permitindo o equilíbrio. Partamos daqui, daquilo a que podemos chamar o Princípio da Polaridade, para compreender os Enamorados. Filosoficamente, digamos que a energia primordial tem de se polarizar para dar lugar aos Opostos, de cuja interacção surge o Universo, a matéria.
A polaridade entre masculino e feminino é aqui o símbolo maior. Radica-se na concepção ancestral que define o feminino como passivo, frio, o Anima que simboliza a natureza vivente (eros), e o masculino activo, quente, o Animus, símbolo da natureza intelectual-espiritual (logos). Entre eles dá-se a União, complementar embora aparentemente contraditória, mas por isso mais rica, construtiva e criadora.
Nas cartas de Tarot percebem-se geralmente três personagens – uma feminina, uma masculina e uma terceira, angelical ou aparentemente neutra, que facilita a união, como um catalizador. Por vezes esse elemento facilitador é duplo (um celeste, o outro terreno). Há ainda em certas representações duas crianças, um casal de menino e menina.
Digamos agora que a carta representa o Amor e usemos estas personagens para reflectir nas diferentes formas de amar. O facilitador, ou Cupido, representa o amor erótico em que um procura no outro aquilo que lhe falta e vê na união um completar-se a si mesmo. Tem a ver com a paixão que aproxima quem não seria provável entender-se, um desafio de extremos, vivido com intensidade mas geralmente de curta duração. Um segundo nível de Amor apresenta-se no casal, dois adultos maduros, completos e autónomos, entre os quais, para além da atracção erótica, existe respeito e cumplicidade; será aquilo a que em linguagem comum chamamos amor… O terceiro nível do Amor está nas crianças, que sempre se duvida sejam as crianças interiores dos adultos em presença ou um segundo casal. Este é um Amor desprovido da atracção erótica, feito de fraternidade e amizade desinteressada. É uma forma de Amor mais universal, que se pode expandir em todas as direcções e não se esgota.
Tudo isto pode existir em cada um de nós. A atracção da polaridade, a confiança e cumplicidade da relação estabelecida, a compaixão generosa da amizade. Das três se nutre o nosso Eu afectivo, podendo dominar mais uma ou outra, mas todas legítimas e compatíveis. É um impulso que nos leva ao Outro – e este outro pode ser o alvo duma intensa paixão, a força de uma amizade ou a entrega a uma convicção, uma causa maior.
As representações visuais apresentam-nos então as várias personagens, mais ou menos vestidas, mais ou menos simbólicas: o Cupido, que pode também ser uma casamenteira ou um “patrocinador”, no céu ou na terra, infantil ou adulto, com ou sem arco e flechas; o homem e a mulher em pose de entendimento mútuo, de frente um para o outro, olhando um para o outro, ou tocando-se, dando as mãos ou mesmo beijando-se; as duas crianças, estas mais raras nos baralhos, mostram gestos também de entendimento e aproximação. Há no entanto casos, em baralhos mais antigos, em que para um homem há duas mulheres – e aqui a carta mostra um significado de escolha, de opção, pois só uma poderá ser “sua”; outras vezes, há vários casais em presença, sendo que um se destaca pelos gestos afectuosos demonstrados.
Podem surgir ainda mais elementos simbólicos, em casos pontuais: a Árvore da Vida (reportando-nos ao mito de Adão e Eva), a lemniscata, um 8 horizontal, símbolo do infinito e também do eterno retorno, ou as quatro bestas que representam os elementos: touro, leão, águia, anjo.
Astrologicamente, esta carta está associada a Gémeos, signo mutante de ar, da comunicação, das trocas. O número 6 é considerado o número da perfeição e do equilíbrio. A letra hebraica que lhe está associada é ZAIN ou ZAYIN, a espada ou a Mulher de Valor. O seu título esotérico é “O Oráculo dos Deuses Poderosos” ou “O Filho da Voz”.
Esta semana somos inspirados a virar-nos para o Outro. A expansão do afecto pode levar-nos ao despertar ou aprofundar de uma paixão, por uma pessoa ou por um assunto, uma causa. Vamos sobretudo sentir-nos próximos dos amigos, ter necessidade de entrar em contacto, de os procurar.
Se estamos numa encruzilhada, num momento de escolha, vai haver uma energia positiva a levar-nos a tomar decisões. Essas decisões terão uma carga afectiva implícita, porque os Amantes falam sempre de inter-relação. Estaremos num caminho verdadeiro…
Imagem : Tarot Gringonneur ou Charles VI – 1455
Clara Days

Anúncios