Por Clara Days
Palavras-chave: revelação; iluminação; reparação; renascimento

Segundo a Bíblia, aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o Juízo ou Julgamento Final, que confirma a sentença recebida por cada pessoa no seu juízo particular. A crença num julgamento do homem, tendo Deus como juiz e levando em conta os actos praticados em vida por este, é comum em quase todas as religiões do Mundo. O Tarot tradicional parte daí e traduz para esta carta o significado do culminar de uma etapa de vida que deve ser de avaliação, julgamento e possível redenção.
Por sua vez, o termo Eão (ou Aeon, ou Éon) foi apropriado por gnósticos heréticos para designar a série de poderes espirituais evoluídos por emanação progressiva do Ser Eterno, cada um representando um período de tempo. Alistair Crowley, no Livro de Thoth que dá origem ao seu baralho de Tarot, transforma a carta do Julgamento em Eão, como arcano do tempo e das mudanças que este gera.
Temos então um Arcano Maior com dupla designação e cujo significado representa um momento da vida em que há um tempo passado para avaliar e resolver, por via do perdão e da libertação que ele traz. É tempo de renascer, numa ressurreição que nos renova e inspira, purificadora, pacificada.
Acertamos contas com o passado, não para punir, mas para evoluir. O entendimento pleno desta mensagem resgata o nosso Eu da pressão de sentimentos de culpa, por via de uma auto-crítica radicalmente construtiva. Os erros devem ser reparados. As lições retiradas. E temos de ser intimamente justos e perdoarmo-nos pelo que não fomos capazes de fazer bem, sem cair na complacência da auto-justificação nem nos excessos da auto-punição.

As cartas tradicionais colam-se ao imaginário cristão do Julgamento Final apocalíptico, com os seus anjos-arautos de trombeta, fazendo levantar mortos da sepultura.
O baralho de Crowley reporta-se ao mito egípcio de Horus, deus da redenção. Há uma representação da deusa Nuit de corpo curvado em arco protector, dentro do qual está Horus sentado. Uma figura masculina de criança, maior e transparente, sobrepõe-se-lhe, levando o indicador à boca em sinal de silêncio.
Recentemente, a proliferação de baralhos traz-nos cartas do Julgamento / Eão que descolam destes mitos primordiais e utilizam outras simbologias associadas ao conceito de renovação, como a borboleta, a lebre ou a pomba branca.
Este arcano corresponde astrologicamente a Plutão, símbolo de transmutação e regeneração. A letra hebraica que lhe está associada é SHIN ou SIN, o aperfeiçoar da consciência. Em numerologia, segundo alguns autores, o 20 surge associado aos conceitos de renovação e fé e à relação entre o princípio e o fim. O título esotérico deste Arcano Maior é “O Espírito do Fogo Fundamental”.

Olhemos para o nosso passado recente: o que correu bem? o que correu mal? Qual a nossa responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos? O que precisamos de corrigir? O que devemos reparar? A quem pedir desculpa? A quem desculpar?
Estamos numa posição privilegiada para fazer este acerto, sob a energia do Julgamento ou Eão. Olhemos também para dentro: que culpas carregamos? Que sentido faz que nos sintamos culpados? Distingamos culpa de responsabilidade: eu posso ser responsável por algo que correu mal, isso é verificável e passível de se corrigir. Mas a culpa não fará sentido, se for essa a minha atitude.
Nas escolhas da vida, faço o que posso, com os dados que tenho, o melhor que sei e sou capaz. Não sou culpado – sou responsável pelas minhas escolhas e actos. Não preciso de punição – devo reparar os meus erros.
Assumir esta atitude pode ser libertador. Deixa cicatrizar o que passou (as minhas cicatrizes são memórias do que vivi e aprendi…) e permite a cura.
Reparo o passado. Pacifico o presente. Preparo-me para renascer.

Imagem  – Tarot de Bonifacio Bembo Visconti (séc. XV)

Clara Days

Anúncios