Por Clara Days:

Palavras-chave: revelação; iluminação; reparação; regeneração

A carta designada por Julgamento está claramente referenciada ao imaginário cristão europeu que retrata o Julgamento (ou Juízo) Final bíblico, momento único e universal que determinará a entrada no Reino de Deus de todos os que em vida fizeram por merecê-lo. Procurando alargar-lhe o significado, no Livro de Thoth, Crowley escolheu designá-la como Eão (Aeon), termo que deriva de divindades gregas que correspondem a atributos mentais ou espirituais, podendo ser traduzido como “idade”, “o sempre-existente” ou mesmo “eternidade”. Designa então uma época que termina e abre um novo tempo, um tempo de transmutação espiritual.
Qualquer processo evolutivo tem momentos de progresso em descontinuidade, momentos em que se operam transformações qualitativas que mudam as suas características para algo novo e diferente. Digamos então que este Arcano Maior XX representa o conjunto de transformações que acontecem quando se muda de era. Isto será válido para o curso do Universo mas também individualmente, referindo-se a um caminho de descobertas internas que nos permitem dar um salto qualitativo de consciência.
É um momento de “insight”, de iluminação, em que somos capazes de olhar para a vida passada de um patamar superior e entender-lhe os contornos e os sentidos, não nos deixando iludir por pormenores ou detalhes desnecessários. Essa tomada de consciência permite que nos regeneremos, dando-nos o ânimo para perspectivar um futuro em que a nossa vida se transforme. Implica a compreensão e enquadramento dos nossos actos passados e a capacidade de retirar lições, de nos perdoarmos também, para que a bagagem espiritual que carregamos se torne mais simples, coerente e promissora.

Nas imagens das cartas, a alusão ao imaginário do Juízo Final cristão é flagrante. É a ressurreição dos mortos, que se levantam das suas campas ao som de trombetas celestes, surgindo frequentemente tocadas por anjos ou arcanjos. Mas a proliferação de baralhos associados a diferentes correntes espirituais faz com que diferentes símbolos de regeneração e metamorfose apareçam representados, sendo a borboleta o mais comum.
A carta corresponde astrologicamente a Plutão, planeta de transmutação e regeneração. A letra hebraica que lhe está associada é SHIN ou SIN, o aperfeiçoar da consciência. O número 21, embora possa ser simplesmente reduzido a 3, tem um significado importante na numerologia cabalística, onde representa o idealismo e a entrada em “novos mundos”. O título esotérico para o Julgamento ou Eão é “O Espírito do Fogo Fundamental”.

A energia desta semana inspira-nos para que sejamos capazes de interpretar o nosso passado e limpá-lo dos pesos da culpa ou do medo, com uma análise serena e visando a compreensão e reparação dos erros. É como se nos seja proposto um momento de “reset”, onde o que se passou na nossa vida não fica apagado, mas mais “arrumado”, ultrapassando o que tenha sido problemático pela capacidade de entender, enquadrar, perdoar e regenerar.
É tempo para quebrar círculos viciosos em que tenhamos andado enredados, olhando para a nossa vida de cima, o mais desapaixonadamente possível, para podermos expurgar o que correu mal, mas aprender com isso. Mais do que um ponto de viragem, pode ser um tempo transformador, uma mudança do modo de estar e fazer, um novo ciclo.
Deixemos de nos preocupar com o juízo alheio, com o que possa “parecer”.
Dediquemo-nos à transformação do nosso ser, do nosso estar.
Recomecemos, rumo aos nossos ideais.

Imagem 1: Tarot Gringonneur, também conhecido como Charles VI – 1455
Imagem 2: Tarot de Etteilla – 1783/87

Clara Days

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