Por Clara Days:
Palavras-chave: criatividade; vontade; comunicação; engenho.

O Mago é o primeiro Arcano Maior numerado, o 1. Atendendo a que o Louco, numerado a zero, tanto pode ser considerado o primeiro como o último, tomemos este Mago como o início da Viagem que o Louco (puro, ingénuo, a criança) faz através dos 21 arcanos, representando estes outros tantos arquétipos ou estádios de conhecimento e patamares de evolução espiritual.
Primeira carta do primeiro septenário, vejamos a caracterização do conjunto que abre: de um a sete (do Mago ao Carro), correspondem aos poderes individuais criativos, ou, na definição de Oswald Wirth, à “esfera activa do Espírito”. Dentro deste septenário, o Mago é o Arcano da relação entre o esforço pessoal e a realidade espiritual. É activo, positivo, traduzindo em gestos e projectos materiais a inspiração da vontade e o poder da criatividade.
Uma das principais ideias que esta carta nos transmite é a de que os poderes só são válidos se se manifestarem e concretizarem. As intenções, assim, ou são ponto de partida para o uma acção ou projecto, ou não têm qualquer valor. O Mago traz para o terreno do concreto a inspiração do espírito, sendo ao mesmo tempo aquele que traduz ou descodifica as mensagens e o criador material.

Nas representações mais ancestrais o Mago é o “Bateleur”, termo francês que designa uma espécie de saltimbanco de feira que, nos tempos medievais e renascentistas, fazia acrobacias e truques de ilusionismo, montando a sua banca nos ajuntamentos e mercados. Tem pois um aspecto muito comum, junto da mesinha onde estão os objectos que lhe servem para manipulação, e que são os representantes dos quatro naipes das cartas: o bastão, a taça, a espada ou punhal, a moeda ou disco com o pentagrama. Com o tempo começa a apresentar-se com uma varinha na mão, e a sua postura ganha uma intencionalidade muito própria, a partir dos baralhos do século XVIII, vindo a consagrar-se como uma base de inspiração no Tarot de Rider-Waite (1910): uma mão eleva a vara na direcção do céu, a outra aponta o chão. Também o chapéu da personagem vai evoluindo para uma forma ondulada que vem a tornar-se a lemniscata, o 8 deitado que represente o infinito e é um símbolo de poder espiritual. Este arcano permite uma grande variedade de representações, em baralhos contemporâneos, mas, de um modo ou outro, a pose e os objectos são respeitados (mesa, varinha, objectos-símbolo dos naipes, lemniscata). Outros símbolos do seu poder podem ser acrescentados, como o caduceu ou simplesmente a serpente.
Está astrologicamente associado a Mercúrio, o mensageiro dos deuses, planeta da actividade e agilidade mental. O número 1 simboliza a unidade individual, a força criadora, aquele que arrisca e pode até liderar, pela sua positividade e dinamismo. A letra hebraica que lhe está associada é BETH, ou BEIT, a Casa. O seu titulo esotérico: “O Mago do Poder”.

Temos pois pela frente uma semana inspirada, para nos incentivar a iniciar projectos com força criativa e dando corpo à nossa vontade. Passou o tempo da espera e da maturação mental, agora é preciso passar à acção.
O Mago ajuda-nos a descodificar e a comunicar, trazendo para fora as nossas intenções e desejos dum modo inteligível e que podemos (devemos) partilhar. Mas dá-nos sobretudo a capacidade de concretizar, usando os recursos disponíveis de modo criativo.
A inspiração deste Arcano Maior 1 traz-nos engenho e arte, como diria Camões. Engenho, para imaginar soluções viáveis; arte, para lhes dar corpo e utilidade, mesmo que em condições aparentemente pobres de recursos. O Mago não se fica pela metade, usando como desculpa a falta de meios. Ele vai do desejo ao concreto, com vontade – e pode improvisar, sempre que seja necessário.
Nada pode ficar só na intenção, quando o Arcano Maior 1 nos acompanha. De boas intenções, diz o povo, está o inferno cheio… Usemos o entusiasmo criativo do Mago para perseguir os nossos sonhos e lançar mãos à obra.

Imagem: Tarot de Visconti-Sforza (séc. XV)
Clara Days

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