Por Clara Days:
Palavras-chave: comunicação; criatividade; manifestação; engenho.

O Mago traz o céu para a terra, une o espírito à matéria e usa a criatividade para transformar a realidade. Mensageiro e comunicador, apenas a manifestação concreta das suas capacidades o realiza plenamente.
Curioso é ver como esta carta começou por ser a imagem dos ilusionistas medievais com as suas bancas e truques de feira, muitas vezes enganosos. É como se, ao longo da história do Tarot, a personagem corriqueira tenha progressivamente elevado o seu significado, assumindo uma relação com a transcendência que nada primitivamente indicava.
É o Arcano Maior 1, empreendedor, activo, correspondendo ao Princípio Masculino manifestado, enquanto que o seu par 2, a Sacerdotisa, incorpora o Princípio Feminino passivo, intuitivo. Por muito que a visão actual do mundo e da sociedade nos faça rejeitar esta dicotomia estereotipada, no Tarot os símbolos permanecem, e correspondem às parcelas da realidade que cada Arcano Maior representa. Ainda, se o Louco representa o potencial absoluto, a infância, o Mago é o entusiasmo juvenil, cheio de energia e de optimismo.
A minha leitura pessoal deste Arcano assenta sobretudo na dimensão da criatividade, entendida como uma actividade mental que está orientada para a criação. Sendo um processo intelectual, há sempre aqui uma orientação para a prática (ainda que essa prática possa também ser intelectual). O Mago só se realiza quando concretiza, usando o seu “poder”, a sua capacidade de transformar criativamente. Ele alia a imaginação ao engenho e consegue usar o que está ao seu alcance como ferramenta para a acção.
Convém ainda lembrar que os primeiros sete Arcanos numerados (o primeiro septenário) se reportam ao processo consciente de cada um se afirmar e criar a sua própria estrutura pessoal, a sua autonomia emocional, afectiva, intelectual, para intervir no mundo. O Mago é o ponto de partida dessa etapa da “viagem”.
No Tarot primitivo tem o título de “Bateleur” ou “bagatto”, (o artista de feira, em francês e italiano), mais recentemente o Tarot de Osho Zen chama-lhe “Existência”, enquanto outros o designam como “Merlin”, “Controle”, “Perícia” ou “Hermes”.

Nas imagens das cartas, a personagem de feira foi sendo transformada, no tal processo de espiritualização, a que aludi atrás, numa figura que se assemelha a um jovem sacerdote, geralmente com uma pose muito característica: um braço, que empunha uma varinha (mágica…?) eleva-se para o céu, a outra mão aponta para a terra. Símbolos de aproximação ao divino, como a lemniscata (o 8 horizontal do infinito) ou o caduceu (o bastão com as serpentes enroladas), ou a sua representação como Mercúrio, mensageiro dos deuses, de asas nos pés ou no capacete, podem acompanhar o bastão, a taça, o pentagrama e a espada, que representam os naipes das cartas. Quanto mais contemporâneos, mais os baralhos procuram soluções gráficas inovadoras e se apropriam de outro tipo de simbologias, como a do círculo branco e negro que representa o equilíbrio entre as energias yin e yang.
É astrologicamente associado ao planeta Mercúrio, veloz, mensageiro e comunicador. A letra hebraica que lhe está associada é BETH, ou BEIT, a Casa. O número 1 faz dele a unidade de referência, geradora do padrão; para os pitagóricos, é o número da inteligência. O seu título esotérico: “O Mago do Poder”.

Se na passada semana estivemos acompanhados pela contemplação controlada do Dependurado, que medita e procura soluções internamente, esta semana inspira-nos o Mago, que é capaz de passar da ideia à acção. Surge como um progresso natural, onde o pensamento criativo tem uma função determinante.
Trata-se então de encontrar maneira de usar o que a vida nos tenha trazido para transformar a dita vida. Não precisamos de sair do nosso lugar, mas sim de gerir os recursos que estão ao nosso alcance dum modo diferente, inventivo. A meta tem de ser prática e é preciso caminhar para a sua concretização, ou nada fará sentido.
É natural que haja uma efervescência interior, pelo pensamento rápido, pelo surgimento de ideias. Tenhamos confiança e sigamos o caminho da nossa originalidade.

Imagem : Tarot of the Sevenfold Mystery, de Robert M. Place, 2012

Clara Days