Por Clara Days:
Palavras-chave: polaridade; complementaridade; confiança; decisão.

Pólos opostos atraem-se e isso aplica-se às relações de cada um de nós com o outro, ou com o que está fora de nós. Aplica-se também intra-subjectivamente, entre o meu eu consciente e o inconsciente, que por vezes se digladiam e provocam sofrimento ou desconforto, que é preciso apaziguar. Os Enamorados trazem uma mensagem de compromisso e não de confronto, implicam sempre uma dualidade que é importante conciliar.
Este Arcano Maior 6 mostra-nos, no seu sentido mais elevado, o Princípio da Polaridade, aqui representado pela interacção amorosa entre o Princípio Feminino e o Princípio Masculino (entendamo-nos, isto são símbolos, não fundamentos sociológicos). Um homem, uma mulher – dois diferentes entre si – e também outras personagens: uma delas representa a mediação, ou a conciliação, é um facilitador; outra, refere-se à intensidade do sentimento em questão. Mas tudo se passa na esfera da decisão. Implícita, ou explicitamente, há sempre, nos Enamorados, o apelo à intervenção da vontade, do livre arbítrio.
Erradamente, numa visão superficial, associa-se a carta ao amor romântico. Isto é totalmente redutor. O Amor de aqui se fala tem um sentido abrangente, referindo-se a pessoas como a causas, a carreiras, a sonhos por concretizar ou devoções intensas. Há uma intenção de dedicação e uma decisão pelo compromisso, que é como quem diz, da atracção passa-se ao envolvimento assumido e consciente. Assim se ultrapassam barreiras como a aparente incompatibilidade (que pode ser complementaridade disfarçada) ou a inconveniência (que pode ser pretexto para se não assumir as consequências duma decisão radical). O Amor constrói-se, a partir daqui. Nada tem de fútil ou passageiro, quando é cumprido pelo caminho dos Enamorados.
Este Arcano Maior tem outras designações, como “Amoroso”, “Amor”, “Vício e Virtude”, “Indecisão” ou “Livre Arbítrio”.

A representação dos Enamorados, desde os baralhos de Tarot mais antigos, como o Tarot de Visconti-Sforza (séc. XV) apresenta quatro personagens bem caracterizadas: o homem, a mulher, uma terceira pessoa que os apresenta (um patrono, ou casamenteiro) e no topo, voando, Cupido de flecha em riste. Há, pois, aqui, os pólos opostos, o catalisador que facilita ou promove a relação, e o elemento de paixão, de atracção intensa. É como se nos seja dito que uma união, no casal, só é plenamente realizada se houver concórdia e o envolvimento dos sentimentos (lembremo-nos que, à época, muitos casamentos eram arranjados por conveniência). Este conjunto vai perdurando nas representações do Tarot, através dos tempos e até aos nossos dias, com mais ou menos elementos simbólicos associados. Nos baralhos recentes, o casal surge frequentemente autónomo, sem a presença de terceiros.
Em Astrologia, este Arcano Maior corresponde mais consensualmente a Gémeos, também um signo de dualidade, embora nalguns baralhos a associação seja com Touro, bem mais terreno. O seu número 6 é um número de perfeição e equilíbrio. A letra hebraica que lhe está associada é ZAIN ou ZAYIN, a espada ou a Mulher de Valor. O seu título esotérico: “O Oráculo dos Deuses Poderosos” ou “O Filho da Voz”.

Nesta semana é-nos sugerido que tomemos decisões para nos aproximarmos daquilo que mais nos desafia e atrai, seja uma pessoa, um projecto, uma causa ou um sonho – em resumo, uma paixão. Esta assunção compromete-nos com a decisão de modo consciente e determinado, nunca fútil ou superficial.
O que é que temos desejado fazer, sem tomarmos as medidas concretas para o concretizar? Por quem nos sentimos atraídos, sem termos tido ainda a coragem de o afirmar plenamente? O que é que nos empolga intimamente, mas com que não nos comprometemos, até agora? Por mais arrojado, por mais arriscado que seja o passo, estará provavelmente na hora de o dar. Poderá até não correr bem – mas nunca nos perdoaremos, se não tentarmos.
Numa outra dimensão, mais íntima, pensemos também nas contradições internas que temos sentido, sem que tenhamos sido capazes de apaziguar esse sofrimento com uma decisão que, sabemo-lo de coração, é a certa. O que podemos fazer por nós, para nos sentirmos mais coerentes com quem desejamos ser? Precisamos de ajuda – por que não procurá-la? Já repetimos dezenas de vezes que vamos fazer algo – por que não começar? Temos algo a perder? O que temos a ganhar?
Cada um de nós tem o dever de procurar ser feliz e, para o atingir, deve aceitar o desafio e o compromisso, que, na linguagem dos Enamorados, são os dois lados da mesma moeda. Nesta acepção, o Amor é uma forma elevada de envolvimento que podemos ter connosco, com os outros e com o mundo.
As decisões estão maduras, dentro de nós. Agora, é preciso assumi-las.

Imagem : Kitchen Tarot, de Susan Shie e Dennis Fairchild, 2010 (1ª edição)

Clara Days