Energia para a Semana 17-24 Nov- V O HIEROFANTE

Por Clara Days:
Palavras-chave: pertença; tradição; ideologia; busca espiritual.

Quem sou eu, se não forem os outros? Onde é o meu lugar de pertença? Sigo as regras porque me são impostas, porque me facilitam o viver, ou porque acredito nelas?
O meu crescimento foi balizado pela contenção dos limites, que fui testando, um a um, até ser quem sou. Era necessário, como necessário é que haja os outros, um grupo de referência, para que eu seja Humano.
Agora, adulto, posso definir-me em plena liberdade interior: seguidor, líder, activo ou passivo, assertivo ou submisso, mas devendo sempre procurar o lugar certo para poder expandir-me – integrado, independente, resistente…
O Hierofante traz-me o Princípio da Transcendência Espiritual, ele pode ser meu guia, mas o guia posso ser eu. Se me respeitar, serei livre em consciência, mesmo nos tempos amargos. É meu dever e meu direito, viver em harmonia com a minha crença e os meus valores, a tradição com que me identifico ou a regra que adopto. Em sentido lato, devo ser sempre um crente, porque é preciso acreditar.
Pode ser reconfortante cumprir em conjunto rituais de pertença, tradições. Pode ser mais fácil sujeitar-me a viver integrado no grupo maior, respeitando as regras, aceitando a limitação, cumprindo o que outros definem como meu dever, ocupando o que outros escolhem como meu lugar. Mas, ainda assim, será fundamental que o principal limite seja o da minha consciência.
A espiritualidade não precisa de ser religiosa, esotérica ou mística. Precisa de ser íntima e coerente e ajudar-me a elevar os sentimentos e as convicções, sobretudo quando a vida me é mais adversa. Tenho, dentro de mim, o maior poder: o de ser como sou, haja o que houver.
E, no entanto, quem sou eu, se não forem os outros? Quem sou, se não me referenciar em relação ao colectivo?

A carta do Hierofante (sumo-sacerdote da Grécia antiga, designação abrangente), foi primitivamente o “Papa”. É o sumo-sacerdote católico, da religião dominante nos países da Europa onde o baralho, semelhante ao que usamos, foi criado. No ecletismo dos nossos dias, são-lhe atribuídas diferentes designações: o Tarot de Osho Zen chama-lhe “O Vazio” (No-Thingness), mas ainda recebe nomes como “Sumo-Sacerdote”, “Vigário”, “Tradição” ou “Revelação”.
As representações visuais deste Arcano Maior partem do primitivo Papa, devidamente paramentado para o ofício religioso. Hoje, surgem figuras de hierarquia religiosa, variando as culturas ou religiões aludidas. O uso de manto, de bastão, de coroa ou chapéu ritual, o trono, investem-no de poder. Por vezes tem na mão uma chave, a dos segredos sagrados. Outros sacerdotes são mostrados de acordo com os respectivos rituais. Tem, geralmente, uma postura que é de autoridade, ou de paternalismo. Frequentemente estão, junto de si, seguidores, que olham para ele em busca de orientação.
O número 5 introduz movimento e tempo, depois da estabilidade do 4, podendo ser considerado um símbolo de mudança. Cinco são os dedos da mão e os elementos fundamentais da tradição chinesa (água, madeira, fogo, terra, metal). A letra hebraica que corresponde ao Hierofante é VAV, o gancho que conecta os pilares da criação. O seu título esotérico: “O Mestre Triunfante”.
Astrologicamente, esse Arcano Maior referencia-se ao signo Touro, fixo, de terra. É uma associação que parece um tanto imprecisa. Touro é estável, realista, tão persistente quanto teimoso. Refere-se ao que é concreto, utilitário, ao que cresce. A regência de Vénus adoça-lhe o trato, ligando-o à vida pelo lado do prazer físico. Esta relação com o Hierofante realça, pois, o lado conformista e regrado atribuído à carta, não a sua dimensão espiritual. Touro define um Hierofante sólido que apela à conformidade, aos valores ancestrais.

Como nos posicionamos, nesta semana que hoje começa? Nas escolhas que fizermos, que relações queremos estabelecer com o colectivo?
Será mais fácil remar a favor da corrente, parece dizer o Hierofante. No entanto, sabemos que um barco à vela tem meios para usar alguns ventos que não são tão favoráveis. Teremos nós essa mestria intelectual?
Podemos limitar-nos a seguir, e estará certo. Podemos seguir vias alternativas, mas, aí, terão de ser ponderadas e fundamentadas. É provável que haja situações difíceis que precisaremos de ultrapassar, ultrapassando os nossos preconceitos de inevitabilidade ou derrota. Há que elevar o olhar, ver os problemas de cima e procurar, mesmo que intimamente, soluções que nos aqueçam a alma – ainda que não resolvam o lado prático, ajudar-nos-ão.
As palavras mais importantes podem ser crença, persistência ou resistência, a par da elevação espiritual. Em última análise, lembremos:
“Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre”
(Carlos de Oliveira, musicado por Manuel Freire)

Imagem : Tarot New Era Elements, de Eleonore F. Pieper, 2018

Clara Days

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