Por Clara Days:
Ideias-chave: equilibrando o instinto; entre a tentação e a responsabilidade; independência no reajuste da vida.
Continuamos a viver tempos de contradição e paradoxo, balançando entre o impulso e a conveniência, entre a procura de equilíbrio e a necessidade de afirmar a nossa liberdade sem restrições. A combinação das energias contrastantes do Ajustamento e do Diabo só reforçam estas ambivalências.
A energia da Justiça tem a ver com a busca do equilíbrio numa perspectiva racional e responsável, em que precisamos de aceitar que os nossos actos produzem efeitos e têm consequências, e que temos o poder de os orientar num ou noutro sentido. Podemos modificar o nosso espaço de intervenção no mundo, intervir nos acontecimentos e orientá-los, na medida das nossas possibilidades. É, pois, das nossas decisões conscientes que aqui se trata, como também da necessidade de sermos capazes de nos ajustarmos às situações que a vida nos traz, medindo e pesando os acontecimentos para encontrar o modo equilibrado de nos adaptarmos às circunstâncias, sem deixarmos de ser quem somos.
Por sua vez, o Diabo chama-nos aos instintos. Não aceita ser obediente e segue o seu percurso a sós, sem olhar para o lado. A irracionalidade fá-lo levar a sua avante sem restrições e correr riscos, mesmo que para resultados imprevisíveis ou desastrosos. Fomos ensinados a vê-lo como perverso, mas devemos abordá-lo antes por outro prisma: na sua dimensão espiritual, ele não aceita servidão e prefere um caminho duro e solitário, desde que a definição do rumo seja a sua e as consequências apenas o afectem a ele. O paradoxo é este: sendo independente de espírito, acaba por poder depender dos seus instintos primários e procurar recursos de sobrevivência através de compulsões que o amarram. Navega então entre a rebeldia perante os outros e a submissão aos seus impulsos irracionais.
Já tivemos de viver sob esta influência combinada de Justiça e Diabo recentemente, há sete semanas atrás, e sobrevivemos às contradições em que nos lançou. Trata-se de saber até que ponto precisamos de nos ajustar ao que a vida nos impõe ou podemos tomar decisões independentes que nos conduzem a um caminho único e arriscado. Oscilando entre uma e outra opção ou procurando no fio da navalha um ponto de equilíbrio, é sempre possível viver o contraste como um desafio pessoal que nos leva mais ou menos ao limite de nós mesmos. Cada um, nas suas circunstâncias, tem o poder de decidir.
Importante é garantir que, a haver consequências problemáticas, elas não afectem as outras pessoas. Fazendo uso do sentido de responsabilidade da Justiça, para balizar a severidade dos impulsos do Diabo, podemos salvaguardar estes aspectos fundamentais. No fundo, trata-se de garantir a essência do direito à liberdade: a de cada um termina onde começa a dos outros.
Uma boa semana para todos nós!
Imagem : Zillich Tarot, de Christine Zillich, 2018

Deixe um comentário