Por Clara Days-

Palavras-chave: chamamento interior; libertação; revelação; renascimento.

Seja qual for a designação que escolhamos, o Arcano Maior 20 representa sempre um tempo de iluminação, uma capacidade de elevar a nossa visão do mundo e da vida, permitindo-nos encará-los como um todo, em que cada parte do que nos atormenta está integrada, é apenas um pormenor. E teremos de ser capazes de a quebrar e ultrapassar, para evoluirmos. Todas as religiões, ou quase todas têm.. uma referência ao julgamento dos mortos, à sua travessia, seja para a vida eterna, seja para a reencarnação. A acepção tradicional dada a esta carta cola-se ao conceito cristão de Juízo Final, que permite a redenção e ressurreição dos mortos. Isto é bem visível nas imagens dos baralhos clássicos.

Na perspectiva de outras latitudes filosóficas e religiosas, a carta pode corresponder ao cumprimento da lei do karma, causa e efeito. Aleister Crowley (1875 – 1947) escolheu designá-la por Aeon (Eão), associando-a ao termo gnóstico que designa a série de poderes espirituais evoluídos por emanação progressiva do Ser Eterno, e que constituem o mundo espiritual; a carta seria o último passo, na aproximação a esse patamar. O Arcano 20 pede-nos que sejamos capazes de rebentar as estruturas caducas que temos dentro de nós e transformá-las em algo completamente novo. Há que primeiro destruir, para poder renovar. Para isso precisamos de pôr em prática tudo o que vamos compreendendo. Influenciados por esta energia podemos despertar, expandir a nossa consciência, tomando iniciativas onde nos revelamos na plenitude do nosso ser – é uma nova fase da nossa vida que se pode iniciar, sem intermediários. É um tempo de ver mais longe, de perseguir a nossa “Utopia”. A esperança renova-se e impele-nos, qual renascimento da Fénix.

O Julgamento / Eão propõe uma libertação que nos aproxima da luz. Teremos de ser capazes de destruir aspectos da nossa vida que estão já a fazer-nos mal e não têm futuro, e depois encetar um novo caminho. Mas do que a carta nos fala é de uma mudança de mentalidade, não da destruição de bens materiais; esta mudança ocorre no mundo espiritual, na consciência. É o momento de prestar contas pela forma como usamos as nossas oportunidades, de que emana uma energia para conseguirmos abandonar de vez o peso do passado e seguir por um caminho que não seja a sua continuidade, antes um novo rumo. A maioria dos baralhos clássicos tem referências visuais explícitas do Juízo Final cristão: as entidades celestes da ressurreição que levantam os mortos da sua sepultura, o anjo com a sua trombeta anunciando a magnitude do momento. Noutros casos, como o baralho de Crowley, aparece uma representação de um ser “espiritual” – tranparente ou difuso – que emana duma personagem mais nítida e concreta. Há ainda soluções gráficas que aludem explicitamente ao mito da Fénix Renascida. A libertação da consciência está retratada de modo mais livre, em baralhos recentes.

A correspondência astrológica associada ao Arcano 20 não é consensual: uns associam-no a Plutão, planeta de destruição e transmutação. Outros falam de Júpiter e Saturno em Aquário, símbolizando a entrada numa nova era. A letra hebraica que corresponde à carta é SHIN, a Chama Eterna. O seu título esotérico “O Espírito do Fogo fundamental”. Esta será uma semana em que nos podemos renovar. Uma resposta verdadeira à proposta do Julgamento, ou Eão, dá-nos a oportunidade de crescer física, emocional e espiritualmente. Não a desperdicemos.

Clara Days

Imagem – reprodução do tarot de Visconti-Sforza (séc. XV), pertencente à Yale University’s Cary Collection of Playing Cards

13043308_270072193332362_8089525056250345654_n

Anúncios