Por Clara Days:
Palavras-chave: Mudança; movimento; destino; oportunidade.
A carta que nos inspira para esta semana é o Arcano Maior 10, A Roda da Fortuna, também designado como Roda da Vida, que representa o princípio universal do movimento. Ela mostra-nos antes de mais que no desenvolvimento da vida há altos e baixos, turbulência e calma, contrários que se sucedem e assim se complementam ou equilibram, como na natureza. A noite que alterna com o dia, a maré que sobe e desce, a vida que adormece e renasce todos os anos, com o renovar das estações. É um equilíbrio dinâmico sempre em mudança e em alternância.
O arcano remete-nos inevitavelmente para o conceito de destino. O entendimento deste como fatalidade ou consequência, se encarado com determinismo ou como fruto do nosso livre arbítrio, baliza a compreensão que temos do destino e da sua importância e características. O que é inevitável, o que é evitável? Que parte desempenhamos, com a nossa acção, para interferir no desenrolar dos acontecimentos?
Entender esta Roda da Fortuna como uma versão da lei do Karma parece-me uma interpretação legítima e que afirma a importância do nosso papel na construção do “destino”, vendo a relação acção-consequência como o seu principal motor.
Mas há também nesta mensagem da Roda uma ideia de que a oportunidade que surge num momento não durará e deve ser apanhada por nós no tempo certo, para que possa resultar. Pede atenção, vigilância e capacidade de responder com eficácia aos acontecimentos, ainda que inesperados, sem adiamentos ou hesitações.
O conceito da Roda da Fortuna, tal como nos é apresentado no Tarot, deriva do mito que a identifica com as voltas do destino: a Dama Fortuna fazia rodar a sua roda e nela os que subiram na vida caíam, para de novo poderem subir, sendo inevitável depois uma nova queda, e assim sucessivamente. Esta concepção servia o ideal religioso da época que tentava dar aos muitos pobres o consolo de lhes dizer que os poderosos iriam ser despojados.
Assim, as representações visuais mostram diferentes tipos de personagens em ascensão e queda, presos ou agarrados à grande roda que gira, e que por vezes nos surge suportada nos ombros de um homem (o Tempo?) ou ao lado da mulher (a Dama Fortuna), que a faz girar. Pode também surgir suspensa no espaço, e circundada pelas quatro bestas simbólicas dos elementos.
A ideia desta roda é também associada à compreensão babilónica da esfera celeste, em permanente rotação no seu movimento aparente. Astrónomos e filósofos da antiguidade clássica entendiam a imagem de roda em movimento como princípio organizador matricial do universo: Vettius Valens, astrónomo grego, explicava os céus como uma sucessão de rodas concêntricas, cada uma suportando seu planeta ou as estrelas, sendo a nona a roda do zodíaco.
Em Astrologia, hoje, a carta da Roda é referenciada a Júpiter, Pai dos deuses, planeta da expansão. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O seu título esotérico é “ O Senhor das Forças da Vida”.
Há sempre, pelo menos, duas formas de encarar as situações que a vida nos traz. Podemos aproveitar a energia do momento para sintonizar o nosso Eu com o Todo, agindo e conseguindo assim tirar o melhor proveito da Fortuna, ou podemos apenas deixar a nossa vida ser guiada pela Fortuna.
Para esta semana, será de esperar que surjam algumas oportunidades. É preciso estar atento e equilibrado, para poder agarrá-las – ou não.

Clara Days
Imagem: Tarot de Visconti Sforza (séc. XV)

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