Por Clara Days:

Palavras-chave: eliminação; transformação; metamorfose; transição.
Na última semana tivemos a Roda, que nos mostrou que ciclos de ascenção e descida se alternam na nossa vida, sucedendo-se num equilíbrio dinâmico. Hoje, a Morte traz-nos a importância da transformação interior, as metamorfoses da nossa alma, indispensáveis para prosseguir caminho.
Falamos aqui do Princípio Universal da Transformação, que é a principal lei da Natureza. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – Lavoisier definiu esta noção com palavras sábias e certeiras. Assim fala a Morte.
Nos baralhos ancestrais esta carta era a Inominável. Numerada com o 13, número considerado aziago também, o arcano reconhecia-se pela imagem mas não tinha nome; assim era conotado com os nossos maiores e mais legítimos medos perante o fim.
Não sei precisar quando a transição se deu e o Arcano Maior Morte passou a ser definido pela sua energia transformadora, em vez de se focar no poder destruidor. Mas a sua mensagem é de que, quando algo acaba, algo começará, para tomar esse lugar – sem que o velho termine, o novo não tem espaço para se instalar. O ciclo da vida exige transformação, por muito que o tentemos negar, e lutar contra ele é sempre inglório.
A sabedoria que nos é pedida é que interiorizemos a “bondade” deste inevitável, no sentido em que é a condição da nossa evolução. Quando algo termina, cria-se espaço para que algo comece, e podemos escolher entre focar-nos no que se perdeu ou no que está para vir. Lembro aqui uma frase de Almada Negreiros que sempre me inspirou: “Até hoje, fui sempre futuro” – virado para a frente, confiante no que se pode ainda fazer, transformar, (re)construir.
As representações da maioria dos baralhos mostram-nos a Morte como Ceifeira da Vida: o esqueleto, as suas vestes longas com capuz, a enorme foice e os corpos que ficam decepados pelo chão. Pode vir a cavalo, em rápido galope e decapitando pelo caminho. Por vezes é um guerreiro de armadura que transporta uma bandeira negra com uma rosa ou uma estrela, a branco. Essas configurações formais remetem para um imaginário mais pessimista e derrotista do que para a verdadeira mensagem que a carta transporta.
Recentemente, porém, surgem muitas representações mais etéreas, algumas simbólicas, da Morte como transição, transformação do corpo, mostrando esse fenómeno como uma coisa pacífica e espiritual. Um ser alado que se eleva de outro, uma mulher bela de tez pálida. – a Morte-mulher, ideia recorrente, Morte como reverso do nascimento, com protagonista feminina. Surgem também representações de um túmulo ou duma mulher (de novo…) em pose funerária.
Astrologicamente, a Morte, Arcano Maior 13, está associada a Escorpião, signo fixo de água, intenso e aparentemente passivo, denso de emoções e vontade. A letra hebraica que se lhe associa é NUN, o Messias, herdeiro do trono. O seu título esotérico: “O filho dos Grandes Transformadores”.
Nesta semana que entra, encaremos o fim de uma etapa como o princípio de uma outra e estejamos dispostos à transformação interior que nos é pedida. Dancemos a dança da Morte como uma energia catártica, que nos liberta de emoções, comportamentos e esquemas mentais caducos, abrindo caminho a uma redenção. Encaremos as transformações que a vida nos pede como a nossa força.
Imagem  – A Inominável, no Tarot Noir.

Clara Days

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