Por Clara Days
Palavras-chave: Complementaridade; decisão; dualidade; polaridade.
Este Arcano Maior 6 fala-nos, antes de mais, de escolhas e decisões. A energia que a carta transporta mostra-nos a dualidade e pede a compatibilização, trata-se da polaridade dosopostos que se atraem.
O conceito aqui explorado parte do simbolismo do contraste Masculino / Feminino, encarados como dimensões de personalidade que todos temos, em proporções variáveis. Simbolicamente consideradas, há qualidades que ancestralmente foram associadas aos dois géneros: o feminino passivo, frio, o Anima que simboliza a natureza vivente (eros), e o masculino, activo, quente, o Animus, símbolo da natureza intelectual-espiritual (logos). Ambas coexistem em nós, completando-se – o lado esquerdo e o direito do cérebro, o comportamento íntimo e o social, o reflectir e o agir, podem ser encarados como um todo complexo, feito de contrastes e compatibilidades.
Alistair Crowley chegou a propor que a carta se designasse Os Irmãos. Assim, as energias duais que os Amantes se propõem unir seriam apresentadas como iguais e opostas, complementares, gémeas, cara e coroa.
Mas o que antes de mais nos é pedido é que sejamos capazes de fazer as escolhas e tomar as decisões que nos conduzam à felicidade. E aqui o Amor tem um sentido lato e universal, vai muito mais longe do que o sentimento que une duas pessoas. Pede que tenhamos a coragem de procurar harmonizar os nossos contrastes internos e aceitemos entregar-nos àquilo que amamos – uma paixão, uma causa, um sonho, a nossa carreira profissional…
A questão primordial é simples: o que estamos dispostos a fazer para podermos ser felizes? Que mudanças, que opções temos ao nosso alcance para encontrar a harmonia interna que pacifica as nossas contradições mais íntimas e nos permite a expansão pessoal? Que escolhas estamos dispostos a arriscar, entre o seguro e o inesperado, o antigo e o novo, o conhecido e o desconhecido? Até onde nos deixaremos conduzir pelo coração, temperado com a lógica da razão?
As imagens das cartas trazem-nos o Casal simbólico, frequentemente referenciado a Adão e Eva, autênticos na sua nudez. Os dois estão frente a frente e a sua postura é simétrica, como se procurassem um no outro o reflexo de si. Por vezes, são crianças, e, adultos ou pequenos, parecem disponíveis a conhecer-se, a entregar-se. Mas o interessante é que quase sempre há uma terceira personagem, um facilitador, um intermediário – pode ser Cupido ou um outro anjo; por vezes até são duas personagens, esta mais celeste e espiritual e uma outra terrena (a casamenteira? a conveniência social?), que os apresenta um ao outro ou abençoa o momento. Como se aqui se tratasse da relação, o elemento de união, e esse fosse um factor exterior e o garante do sucesso deste encontro. Elementos simbólicos de divindade e protecção acompanham a cena, atribuindo-lhe um carácter de relevância espiritual.
Astrologicamente, o arcano maior 6 corresponde a Gémeos, também um signo de dualidade. Mas nalguns raros baralhos a associação é com Touro. A letra hebraica que lhe está associada é ZAIN ou ZAYIN, a Espada ou a Mulher de Valor. O seu título esotérico é “O Oráculo dos Deuses Poderosos” ou “O Filho da Voz”.
Entramos neste ano novo com uma inspiração para fazermos escolhas, para procurarmos caminhos para a felicidade. É-nos sugerido que olhemos a vida pelo lado do coração e descortinemos os nossos anseios como possíveis de se realizar. Apaziguemos as nossas contradições internas e demos oportunidade a nós próprios para prosseguir atrás dos amores mais puros e positivos, que nos possam levar adiante.
O tempo é de escolhas. Deixemos o coração escolher também. Arrisquemos trabalhar para seguirmos os nossos desejos e sermos mais felizes.
Imagem – Tarocco Soprafina de F. Gumppenberg (Milão,1835)
Clara Days

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