Por Clara Days:
Palavras-chave: potencial; espontaneidade; confiança; caminho.
Ele é ao mesmo tempo o primeiro e o último dos Arcanos Maiores do Tarot, o Viajante que começa ou termina o caminho, aquele que está aberto a tudo e de quem tudo se pode esperar. Vem esta semana lembrar-nos que no mais íntimo de nós há uma criança capaz de olhar a vida como se fosse a primeira vez, de ver sem preconceito nem reserva o mundo que a rodeia.
Em muitos sistemas esotéricos de interpretação das cartas do Tarot, a carta do Louco, o zero, é interpretada como uma espécie de protagonista de uma história contada através dos Arcanos Maiores, os quais constituem 21 etapas do caminho através dos grandes mistérios da vida e dos principais arquétipos humanos.
Espontâneo e aberto ao novo, ele é Louco porque a sua alma simples se lança, confiante e inocente, numa jornada de desafios e sofrimentos, de braços abertos e cabeça virada para o céu. Está pronto para receber o que quer que apareça no seu caminho, mas também ignora os desafios e obstáculos que deverá atravessar enquanto avança para aprender as lições da vida.
A inspiração desta carta traz sempre algo de inocente e aventuroso para nos propôr, um recomeço sem quaisquer intenções ocultas, um novo acordar. É como se a sua influência nos lavasse das marcas de mágoas passadas e nos trouxesse uma coragem para enfrentar a vida sem receio. No entanto, também nos retira algum bom senso, pois leva-nos a arriscar sem medir consequências.
A carta, nos baralhos mais ancestrais, representava um adulto de ar apatetado, a imagem do “louco da aldeia”, escarnecido por uns a acarinhado por outros. Surge só ou acompanhado de crianças, que, nesse caso, parecem troçar dele ou mesmo o apedrejam. Com o tempo passou a surgir representado como um artista ambulante, ou com vestes de bobo da corte, aquele a quem era permitido transgredir para fazer rir. E a sua função nos baralhos comuns foi transitando para a figura do “diabrete”, o “joker” que representa a excepção, entre os naipes e cartas numeradas para os jogos de mesa.
Há no entanto uma dominante que surge a partir do séc. XVIII, em baralhos franceses que vieram a ser consagrados no célebre Tarot de Marselha, e que definiram uma representação de cenário e acção que se foram generalizando e ainda hoje perduram: um homem com gorro que transporta uma trouxa na ponta de um pau, acompanhado de um cão, e que em muitos casos se aproxima dum penhasco ou precipício, como se não se tivesse apercebido dele.
Astrologicamente, o Louco corresponde ao planeta Urano, do altruísmo e da imprevisibilidade. Está também associado à letra hebraica ALEPH ou ALEF, o paradoxo de Deus e o Homem. O seu título esotérico é “O Espírito do Éter”.
Depois de uma semana em que a Lua nos levou a um tempo mais introspectivo, temos agora um tempo de abertura à novidade, com o Louco. Digamos que é como uma lufada de ar fresco para a nossa alma, como se de repente sejamos capazes de intervalar de tristezas e preocupações e acreditar que tudo é possível e há coisas boas para acontecer.
Em termos mais práticos, deixemos a nossa criança interior soltar-se e confiar, nestes dias que se seguem. A intuição será o nosso guia, sem racionalizações nem amarguras. Só pode fazer-nos bem, desde que não deixemos de dar uma olhada ao lugar onde pomos os pés, para não cairmos nalgum precipício.
Imagem : Tarot de Sola Busca, séc. XV (1491?)
Clara Days

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