Por Clara Days:
Palavras-chave: determinação; compulsão; instinto; preservação.
Havia um arcanjo chamado Lúcifer – “o portador da luz”. Na religião hebraica não é referido como um ser malévolo, mas o cristianismo traz-nos para ele a noção do anjo caído, aquele que foi afastado por não querer obedecer, por não se curvar à vontade de Deus. O tempo passou e desse mito primitivo nasceu o Diabo, encarnação do mal, que gera toda uma panóplia de termos e conceitos relacionados com a maldade.
Nos primeiros baralhos de Tarot conhecidos, o Arcano 15 – O Diabo – representava tudo o que é negativo, havendo ainda hoje quem persista em insistir nesses significados. É ligado às compulsões e aos sentimentos mais negativos ou animalescos, num sentido pejorativo – dependências de substâncias, libertinagem, incapacidade de resistir a impulsos destruidores ou inconvenientes. Personifica um “mal”, que é destrutivo e não se preocupa com o quanto prejudica os outros.
Mas há escolas mais recentes que lhe atribuem todo um outro significado: o Diabo é a representação dos instintos, elementos essenciais à sobrevivência – os instintos de defesa, sexual, de preservação, gregário. Eles estão na base de comportamentos que não são negativos, antes primitivos e indispensáveis, permitindo que evitemos ou combatamos o perigo, que nos unamos em intimidade e dessa união possam surgir novos seres, que cuidemos do corpo como a nossa condição de existência e tudo façamos para que ele dure e seja cuidado; mas também que vivamos em comunidade, que procuremos a companhia daqueles com quem nos identificamos e entre eles encontremos felicidade. Há ainda escolas filosóficas que consideram a existência de um outro instinto, mais humano, o chamado instinto religioso, que procuraria aproximar o nosso ser animal da transcendência.
O prazer é o companheiro indispensável do exercício consciente dos nossos instintos. Pelo contrário, quando eles são reprimidos, entramos num estado de alienação que nos acorrenta a padrões de comportamento anti-natura, massificadores e criadores de hábitos que nos reprimem e aprisionam. Inconscientemente, ficamos escravos – não das nossas compulsões internas “negativas”, antes dos comportamentos impostos que nos impedem de manifestar a nossa verdadeira essência e fazem com que o que devia ser prazeroso seja percebido racionalmente como perverso.
Respeitar o instinto e seguir caminhos independentes, ainda que possam implicar risco, sem medos – eis a possível síntese da mensagem deste Diabo. Ele é independente, ousado, respeitador de si próprio. Nessa medida, pode ser feliz, sem que isso corresponda a lesar qualquer outra pessoa. Ele representa a nossa energia vital, no seu estado mais puro.
A maioria das representações visuais dos baralhos apresentam-nos uma criatura mestiça, feita com partes de animais: patas ou cabeça de bode, asas de morcego, cornos, garras de ave predadora, entre outros. Junto a ele, é frequente surgir um casal acorrentado, entre si e a ele, com uma corrente aparentemente frouxa. Mas há baralhos que o mostram como uma criatura que se insinua ou encaminha alguém, e essa pessoa pode estar em atitude de paz ou de sofrimento. Digamos que é uma carta em que a figura central parece sempre diferente, não humana, e em muitos casos aprisionando ou influenciando figuras humanas que possam surgir. O Diabo pode também aparecer só e ter uma expressão facial malévola, neutra ou, no caso de agumas escolas, como a de Crowley, apresentar um sorriso pacífico, conciliador.
Astrologicamente, este arcano é associada a Capricórnio, signo cardinal de terra e de gestação. A letra hebraica que lhe é associada é AYIN, o Olho, como fonte do carácter. O número 6, que soma 1+5 (15), é um número de harmonia e equilíbrio, geometricamente representado por dois triângulos equiláteros sobrepostos, como na estrela de David. O seu título esotérico é “Senhor das Portas da Matéria”, ou “Filho das Forças do Tempo”.
Esta semana é-nos sugerido que aceitemos os instintos e ajamos em respeito pelo nosso corpo e a nossa essência, procurando o prazer das coisas que nos fazem sentir felizes. De certa maneira, esta atitude energética é uma continuação da que nos foi sugerida na semana anterior, com a Imperatriz. Agora, torna-se mais evidente que devemos identificar aspectos do nosso quotidiano em que nos tornámos escravos do hábito ou da convenção e tentar ultrapassar ou quebrar gestos ou atitudes que vão contra a nossa a natureza e são causa de desconforto pessoal.
Deixemos que o nosso ser natural se exprima, respeitemos as necessidades do corpo e procuremos afastar sentimentos de culpa por sermos como somos. Vivamos em harmonia connosco e isso trará, por arrasto, sentimentos de vitalidade e auto-afirmação. Não há mal em sermos diferentes. Não há mal em mostrarmos quem somos. Estarmos bem connosco só pode vir a beneficiar o nosso estar com os outros.

Imagem 2– Tarot de Lombardia (séc. XIX)

Clara Days

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