Por Clara Days
Palavras-chave: introspecção; retiro; jornada; auto-conhecimento.

Lento, paciente, solitário, vem o velho Eremita e consigo a energia do Princípio Universal da Introspecção. “Conhece-te a ti mesmo”, sugere ele, de acordo com o mandamento socrático. Retira-nos da lufa-lufa e dos encontros do dia-a-dia para nos confrontar connosco mesmos, numa busca mais interior do nosso caminho, do sentido da nossa vida. É um tempo de silêncio e solidão. De paciência. De busca.
Há nesta influência o transportar duma semente que procura o lugar onde possa vir a germinar. O Eremita (ou Ermitão) transporta com ele a pequena luz que lhe guia os passos, um a um, enfrentando a escuridão. A luz da candeia dá-lhe a conhecer cada pedaço do caminho, cada detalhe, e neste somatório de pormenores ele vai construindo um todo que representa a sua jornada, a sua busca pessoal. Há algo de uma peregrinação, no andar do Eremita, uma viagem espiritual de auto-conhecimento.
Despreza o mundano, o fútil, o fácil. Foca-se no seu mundo interior, usando a conciência para procurar entender o que lhe subjaz, o inconsciente. Observa e analisa aquela parte da mente onde se guardam as origens – dos impulsos, dos medos, da auto-estima. É um enfoque introspectivo, analítico e metódico: o Eremita consegue olhar para dentro como se visse de fora, pacificada a intromissão emocional nesta aceitação de si mesmo. Aprende. Conhece. Progride.
Viajar com o Eremita é procurar compreender quem somos, de onde vimos, para onde vamos, numa perspectiva íntima e pessoal e não numa atitude filosófica perante o universal. O Eremita á Sábio, tranquilo, seguro. Usa o Tempo a seu favor. Convida-nos ao exercício da instrospecção. Guia-nos nessa procura.

As imagens das cartas são as de um homem velho, com vestimenta de frade ou peregrino, frequentemente encapuzado, apoiando-se no seu bastão ou vara e transportando na outra mão uma candeia ou uma ampulheta. A relação do Eremita com o tempo (a ampulheta), surge sobretudo nos baralhos mais ancestrais, tendo sido progressivamente substituída por uma candeia ou uma lanterna iluminada. O espaço onde ele se encontra é intencionalmente escuro, árido ou pouco definido – ele procura caminho em território mais ou menos desconhecido. É frequente a companhia de um animal, mas inexistente a companhia humana. No baralho de Crowley o animal é mitológico – ele representa Cérebro, o canídeo de três cabeças que na mitologia grega guarda a entrada do mundo “inferior”. O halo de luz que sai da lanterna do Eremita ilumina pouco, mas ilumina o espaço que a rodeia, permitindo que a personagem se não perca. Há sempre uma intenção de representar serenidade, na pose deste Arcano Maior. Ele não corre, não está em sobressalto, nem se apressa: procura caminho.
O Eremita está associado astrologicamente ao signo de Virgem, terreno, concreto, onde cada detalhe é discriminado. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. Numerologicamente ele é 9, relacionado com o altruísmo e a compreensão. O seu título esotérico: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Na semana que hoje entra podemos ter a oportunidade de um encontro connosco. Reservemos um tempo de qualidade para a auto-análise, sem pressões, sem julgamentos. Que caminho estamos a seguir? Que caminho podemos seguir? Que caminho queremos seguir?
Aproveitemos esta energia tranquila para nos aceitarmos e perdoarmos, procurando soluções que correspondam à nossa essência espiritual e não sejam meras reacções imediatas às circunstâncias. Com tempo, busquemos as melhores respostas, as que reflectem quem somos e respeitam o mais íntimo do nosso ser.
É um tempo para nos observarmos. Para escutarmos a nossa voz interior. Para iluminarmos o nosso caminho pessoal.

Imagem 1 – Tarot de Visconti-Sforza (séc. XV)
 Clara Days

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