Por Clara Days:
Palavras-chave: absolvição; revelação; regeneração; renascimento.

Tradicionalmente este Arcano Maior surge fortemente associado ao conceito cristão de Juízo Final, com a possibilidade de redenção para a entrada no Reino de Deus. Numa perspectiva mais lata, o Julgamento / Eão surge como um momento de lucidez e balanço em que o passado é visto como o caminho que nos trouxe a uma consciência mais clara e que permite a elevação para um patamar superior, portador de mudança e facilitador da regeneração.
Este Arcano transmite uma energia de renovação que nos permite rebentar as estruturas caducadas dentro de nós e transformá-las em algo completamente novo. Para isso precisamos de pôr em prática tudo o que vamos compreendendo, sendo capazes de sair da nossa zona de conforto e de prosseguir com audácia, aceitando e assumindo a nossa responsabilidade sobre as nossas acções mas também sobre as omissões.
O Tarot refere-se simbolicamente ao caminho para essa mudança a nível pessoal, no tempo presente, um trilho interior feito de descobertas internas, que nos levam a um salto qualitativo de consciência. É como uma cortina que se nos abra e revele uma nova etapa de crescimento e afirmação, ultrapassando o remorso ou culpa associados. Esta ideia de regeneração aceita as falhas passadas e encontra-lhes um sentido para o aperfeiçoamento, que permite que as corrijamos e ultrapassemos, sendo capazes de mudança até à transmutação.
Certas abordagens associam este arcano às leis do Karma. Há aqui uma relação intensa entre o que passou e o que se passa agora, com uma absolvição íntima e reveladora que nos projecta para o devir. Mudamos de patamar, podemos despertar e expandir a nossa consciência, tomando iniciativas onde nos revimos na plenitude do nosso ser. É um renascimento, uma nova fase da nossa vida que se inicia, sem intermediários, de nós para connosco, no lado mais puro e espiritual de cada um.

As imagens clássicas colam-se claramente à referência religiosa aqui citada, mostrando figuras humanas que se elevam das suas sepulturas e apresentando-nos o anjo ou anjos celestes que fazem soar as trombetas do Juízo Final. Versões mais modernas descolam do significado religioso e apresentam a ideia de renascimento e transmutação com outras simbologias: a borboleta, por exemplo, que foi lagarta e se transformou no seu casulo, a lebre, símbolo celta do renascimento primaveril, ou a pomba branca, representando a purificação. Com diferentes recursos visuais, as cartas podem mostrar um ser humano que se transforma: a sobreposição de uma segunda personagem mais etérea e transparente que “emana” do primeiro ou se sobrepõe a ela, a representação de uma figura em pose triunfal a sair de um caldeirão ou de um ovo, entre outros .
Astrologicamente, este Arcano Maior 20 é referenciado a Plutão, planeta da destruição / transformação, mas também ao elemento Fogo, radical e purificador. A letra hebraica que se lhe refere é SHIN ou SIN, o aperfeiçoar da consciência. O número 20, por redução um 2, a dualidade e polaridade do ying/yang, a complementaridade. O seu título esotérico é “O Espírito do Fogo Fundamental”.

Há uma dose de recompensa espiritual nesta inspiração para a próxima semana. Pode haver um momento de iluminação da nossa situação pessoal, que nos permite olhar para ela como se vista de fora, numa tomada de consciência essencial para poder transformar a vida no sentido necessário. Ficamos capazes de nos compreender e aceitar, perdoando a nós próprios e disponibilizando-nos interiormente para recomeçar.
Todos transportamos no nosso íntimo a criança que fomos, com os seus medos e necessidades de aprovação. A maturidade pode trazer-nos a capacidade de controlar esses receios e tomar iniciativas diferentes, libertos do que os outros possam dizer ou pensar.
Estamos então a viver um momento propício a tomar atitudes práticas que mostrem o nosso amadurecimento e independência, sem receio do julgamento alheio. Aproveitemos a energia transformadora desta carta da semana para ousar fazer aquilo que intimamente sabemos ser necessário e que até aqui evitámos realizar.

Imagem  – Carlo Dellarocca,1850

Clara Days

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