Por Clara Days:
Palavras-chave: quebra; ruptura; revolução; libertação.

Após uma semana com o Mundo a dar-nos pistas de conclusão e futuro, vem a Torre Fulminada trazendo consigo o Princípio da Destruição. Não nos assustemos.
Primitivamente foi conhecida como “A Casa de Deus”, a partir do termo francês Maison-Dieu, designação utilizada para definir o edifício de um hospital ou sanatório monástico, a exemplo do que foi mandado construir por Henrique III em 1234. Têm-lhe sido atribuídos outros títulos ao longo dos tempos: “Casa do Fogo”, “Fogo do Céu”, “Raio”, “A Fragilidade”, “O Hospital”; Crowley chegou a aludir que deveria chamar-se “A Guerra”. Todas estas designações implicam um momento difícil e provavelmente inevitável.
O fogo é um elemento venerado transversalmente, em diferentes culturas, pelo seu poder, quando dominado pelo humano ou quando livre e incontrolável. A destruição pelo fogo que a carta simbolicamente representa tem um significado que podemos classificar de libertador, pois o fogo é purificador, tanto quanto destruidor.
No caso desta carta, a destruição da torre alude à destruição da nossa vida organizada, das rotinas mecânicas em que nos instalamos e que tanto nos protegem como nos aprisionam e limitam. Repetimos situações e gestos que com o tempo podem perder o sentido, escondemo-nos atrás de personagens por nós criadas para a vida social, procuramos a protecção de uma “ordem” que pensamos dominar mas que acaba por nos prender e impedir de progredir.
Até que a vida, com as suas leis inexoráveis, nos traz um acontecimento súbito que desarruma tudo e
obriga a uma revisão total da existência. Uma única certeza: nada ficará como antes.
Há aflição, sensação de perda, um “salve-se quem puder” que, se pararmos e esperarmos, cedo se poderá transformar num novo cenário, mais aberto, mais livre, com mais escolhas e caminhos que podemos percorrer. A destruição da Torre é momentânea, há que saber esperar pelo seu verdadeiro efeito: o purificador e libertador. A Torre emancipa-nos e permite que sejamos mais nós próprios, libertos da necessidade do conformismo, do “parecer”.

As cartas são literais, na representação visual: a torre é um edifício, fulminado por um raio vindo dos céus, de onde tombam a pique, de cabeça para baixo, os humanos-sentinelas que eram supostos protegê-la. Do céu podem cair lágrimas de fogo ou de sangue, o local é inóspito e está a contas com uma tempestade. No Tarot de Crowley a destruição tem origem no grande olho divino que domina a parte superior da carta. Motivos simbólicos relacionados com a capacidade de destruir são frequentes, como animais mitológicos. A cena é um instantâneo do momento da destruição e da queda, que não mostra o que foi nem o que será.
Esta carta está associada astrologicamente a Marte, planeta de acção e movimento rápido, representando combatividade e impulsividade. A letra hebraica que lhe corresponde é PEH ou PEI – a boca, a comunicação oral. O número 16 é o quadrado do 4 – representando a destruição da ordem e estabilidade do quadrado – ou pode reduzir-se a 7, um número de conquista e de grande espiritualidade. O título esotérico da carta: O Senhor das Hostes dos Poderosos.

Nesta semana somos alertados para a possibilidade de surgirem acontecimentos inesperados que são destrutivos da nossa estabilidade. Como reagir?
Certamente que haverá um susto inicial. Mas, às vezes, é preciso um abanão para acordarmos da nossa vidinha.
Sejamos capazes de não fugir em debandada e esperemos: a poeira assenta, a luz mostra-nos novas oportunidades. Há coisas mais importantes do que uma estabilidade radicada no hábito. Há caminhos novos para escolher, novos ângulos para explorar, há um reencontro com o essencial de nós que nos permite perceber melhor quem somos e o que queremos ser e fazer. Há a oportunidade de um recomeço em novas bases.
A destruição é um instante assustador, mas passageiro, e no fim abre-nos ao mundo. Apostemos no futuro.
Imagem : Tarot de Crowley, com desenhos de Frieda Harris – primeira edição em 1969 (realizado entre 1938 e 1943)

Clara Days

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