Por Clara Days
Palavras-chave: objectividade; decisão; reajuste; imparcialidade.

Dupla numeração e dupla designação para este Arcano Maior, que nos fala de justiça e ajustamento.
A dupla numeração resume-se a pouco: tradicionalmente era 8, mas no baralho de Rider-Waite (1910), um dos mais utilizados pela facilidade de leitura das suas imagens, esta numeração foi trocada para 11, permutando com a Força ou Entusiasmo.
Quanto à designação, as duas versões complementam-se. Se uma nos pede imparcialidade e rigor, a outra lembra a importância de nos ajustarmos às circunstâncias que vivemos, condição necessária para nelas podermos intervir.
Ultrapassada a “duplicidade”, fixemo-nos na mensagem: este arcano é a expressão simbólica das forças que equilibram e ajustam o Universo, desde a imensidão do Cosmos até à mais ínfima partícula. Para obter tal equilíbrio, essas forças vão construindo aqui, destruindo ali, ajustando os fenómenos particulares para manter o todo. No fundo, trata-se do elo que une todos os seres, vinculando-os uns aos outros.
A nível pessoal, vem a Justiça / Ajustamento pedir que sejamos capazes de escolher com a imparcialidade necessária os caminhos por onde teremos de seguir, em função daqueles por onde já passámos. Há aqui uma clara alusão ao livre arbítrio, encarado como a maior responsabilidade de cada um para consigo e para com os outros. Cada escolha que fazemos, cada decisão que tomamos, deve partir de um esforço de análise das circunstâncias em questão, tentando vê-las desapaixonadamente e não desprezando umas em favor de outras. O objectivo é procurar o equilíbrio e a paz interior.
A vontade não pode tudo, há sempre limites impostos pela realidade externa, a que temos de nos ajustar e dentro dos quais podemos fazer opções. Igualmente, há necessidades internas, a que podemos chamar subjectivas, morais ou espirituais, que nos condicionam as decisões e que devemos ter em conta, para não violentar ou submergir os apelos da nossa essência ou da nossa consciência.

As representações visuais desta carta colam-se claramente à representação tradicional da justiça do direito legal – uma mulher ou anjo, segurando uma balança que tenta pôr em equilíbrio. Com uma grande diferença: enquanto que a mulher da justiça legal está vendada, para não ser influenciada pelo que vê, esta, do Tarot, está de olhos bem abertos, procurando o equilíbrio dos pratos da balança em face da realidade. Em alguns baralhos, no entanto, a personagem do Tarot está de olhos fechados. Um terceiro elemento aparece ainda: uma espada que a mulher empunha, numa clara alusão à radicalidade de certas decisões (lembremos o mito bíblico da justiça salomónica, por exemplo).
A Justiça ou Ajustamento está associada astrologicamente ao signo de Balança, tendo com ele em comum a importância do equilíbrio e do controle mental das decisões. A letra hebraica que lhe está associada é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. O número 8 representa, para certas escolas, o equilíbrio cósmico; lembremos que a sua configuração, desviada para a horizontal, corresponde ao símbolo de infinito. O título esotérico deste arcano maior: A Filha dos Senhores da Verdade ou o Controlador da Balança.

Com a energia desta carta a inspirar-nos na próxima semana, somos convidados a avaliar até que ponto estamos a levar em conta os acontecimentos presentes que influenciam a nossa vida. É indispensável que tomemos consciência deles e nos ajustemos à realidade, em função das circunstâncias actuais. Ancorados neste princípio, poderemos tomar decisões informadas e realistas.
O lado mais difícil deste nosso ajustamento tem a ver com o equilíbrio das nossas necessidades internas relativamente à realidade concreta que vivenciamos. Temos que levar em conta ambos, para podermos avançar num caminho que nos traga segurança e confiança.
Mas o mais importante é tomarmos consciência de que temos de responsabilizar-nos pela nossa vida, pelas nossas escolhas e decisões. Não adianta culpar as circunstâncias: é dentro das suas balizas que fazemos as nossas opções, mas há sempre opções possíveis. É preciso que nos disciplinemos para que o que decidirmos seja razoável e viável, evitando radicalismos que causem desconforto ou sofrimento desnecessário, a nós ou a outros.
Nesta semana que agora começa, tentemos ajustar os nossos impulsos internos à realidade externa. Distanciemo-nos de pessoas hostis ou venenosas e respeitemos o nosso corpo, a nossa personalidade e os nossos princípios. Procurar um equilíbrio é também pacificar as nossas contradições pessoais.
É tempo de fazer escolhas. Ponderemos as nossas opções com realismo e confiança. Respeitemo-nos, mas tomemos as decisões necessárias.

Imagem  – Tarot italiano Della Rocca (1830)

Clara Days

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