Por Clara Days:
Palavras-chave: subconsciente; espiritualidade; intuição; receptividade.

A Sacerdotisa (ou Papisa, ou Grande Sacerdotisa), Arcano Maior numerado com o 2, representa no Tarot o Principio Feminino Universal, no sentido da intuição e da sabedoria instintiva, do silêncio e da receptividade. Entendemos melhor o seu significado por comparação com outros Arcanos Maiores. Assim, vejamos:
Enquanto que o Mago (1) é o princípio masculino, extrovertido, activo e interventivo, ela, por oposição, é a representação da quietude intimista. Enquanto que a Imperatriz (3) é feminina no sentido de fertilidade, da maternidade e da ligação ao mundo físico, ela é o seu complemento, ligada à gestação espiritual. Enquanto que o Hierofante (Papa, o 5) é normativo, ela tem uma sabedoria instintiva que não partilha por palavras, muito menos impõe. Enquanto que o Eremita (9) é associado ao auto-conhecimento, não está centrada em encontrar-se, antes numa atitude disponível e receptiva.
A Sacerdotisa tem uma atitude de contemplação e observação interior. Deixa acontecer e é guiada pela intuição, com uma sabedoria instintiva, irracional e fluida. É intimidade e interiorização.A energia da Sacerdotisa corresponde àquilo que a filosofia tradicional chinesa designa por Yin, receptivo e conservador do Universo.
A Sacerdotisa coloca-nos perante a sombra, mas com uma dose de tranquilidade segura, que ilumina e faz o feio ser também belo. Está em paz consigo.

Entendamos como esta carta surge no Tarot: a sua origem radica-se no catolicismo medieval, relativamente ao papel / lugar da mulher na religião. Ora, desde a cultura clássica grega e romana que o regime de patriarcado impunha às mulheres um lugar secundário e subalterno, na sociedade. Durante os primeiros 11 séculos de cristianismo, isso reflectiu-se directamente na forma como a igreja católica a retratava e / ou venerava (só mais tardiamente a Mãe de Jesus é elevada a uma categoria quase divina). Surgem, no entanto, na Idade Média, figuras históricas femininas que se afirmam como intermediárias superiores para a religião, tal como, no final do séc. XIII, a irmã Manfreda Visconti, que foi eleita para presidir como papisa pela ordem religiosa dos Gugliemitas, e queimada pela Inquisição em 1300. Em meados séc. XV, Francesco Visconti, quando casou com Bianca Maria Sforza, encomendou um conjunto de cartas em que uma é dedicada à sua antepassada, apresentada com as suas vestes religiosas e intitulada de Papisa. Nos baralhos posteriores, este lugar ficou assegurado, assumida como a consorte do Papa.
Mais tarde, já no séc. XVIII, Court de Gebellin estuda o Tarot e atribui-lhe origem no Egipto, passando a intitular este arcano maior como Grande Sacerdotisa, associada aos símbolos de ritos daquela cultura ancestral, frequentemente associada a Ísis, deusa maior, mulher de Osíris, o deus supremo.
Assim, esta Sacerdotisa tanto surge representada com as vestes e símbolos cristãos como adornada de acordo com os cultos e deuses egípcios, sempre com uma forte presença da Lua. Só mais recentemente é mostrada como oficiante de outras religiões, das mais diversas origens e com as referências visuais correspondentes. A cor azul predomina geralmente, associando-a à noite e ao luar.
O seu número 2 é o da polaridade, da complementaridade, da relação do Um com o Outro. É da dualidade que depende o movimento e a vida. Os opostos são idênticos em natureza mas simétricos em grau, atraem-se, os extremos tocam-se.
Está associada astrologicamente à Lua, símbolo da fecundação, de sensibilidade e instinto. A letra hebraica que lhe corresponde é GIMEL ou GUIMEL, o camelo ou a recompensa. O seu título esotérico é “A Dama do Eterno”.

Espera-nos uma semana em que poderemos sentir-nos mais passivos e introspectivos. Por muito que essa inacção pareça improdutiva, não o é: é antes uma gestação inconsciente, um tempo de intimidade que resultará certamente na iluminação de alguns aspectos da nossa vida mental, que nos têm influenciado, mas de que não temos tido consciência plena.
Enquanto que na semana que passou o Diabo continha a energia da insatisfação, há agora uma pacificação interna.
É agora um tempo mais “nocturno”, de descanso e recolhimento, de sonhos reveladores. Estaremos mais receptivos a aceitar as nossas emoções e desejos, mais completos ou auto-suficientes. A meditação estará facilitada.
Tranquilamente, estaremos connosco, sintonizados com o que geralmente escondemos de nós próprios e que agora nos aparece apaziaguado.

Imagem : Tarot de Visconti-Sforza, séc. XV

Clara Days

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