Por Clara Days:
Palavras-chave: Integração; combinação; equilíbrio; conciliação.

Transitamos, numa sequência coerente, de uma semana em que Os Enamorados trouxeram a polarização / complementaridade, para a energia da Temperança (ou Arte), que representa o princípio da integração dos opostos. Se até agora se tratava de celebrar a diferença, hoje pede-se uma síntese integradora, a combinação que transforma o contraste em algo novo e diferente, essencialmente melhor.
Tradicionalmente é a Temperança, a partir de uma das virtudes cardinais do cristianismo (juntamente com a Prudência, a Fortaleza e a Justiça). Simboliza, neste sentido primitivo, o auto-controle, a renúncia e a moderação. Destina-se esta virtude a domesticar os instintos, sublimar as paixões, organizar a sexualidade, moderar os impulsos. Transporta uma energia de controle que pretende o auto-domínio, mas não é necessariamente castradora da essência de cada um.
A Temperança concilia, numa permanente busca de equilíbrio.
Mas há uma segunda caracterização para este Arcano Maior. Baseado no Livro de Thoth de Crowley (1944), um novo baralho combina a tradição do Tarot europeu com a mitologia egípcia, os princípios da alquimia, a astrologia e a simbologia do alfabeto hebraico. A Temperança passa aqui a ser a Arte, e a sua intenção deixa de se centrar na moderação e é agora associada no princípio alquímico “solve et coagula”, que advoga a transformação de substâncias banais em substâncias nobres, pela dissolução e combinação.
Temos então nesta carta um duplo sentido, de acordo com os princípios que cada baralho escolhe: o sentido tradicional de moderação e conciliação, ou um sentido mais elevado, em que desse processo de combinação surge um resultado nobre e elevado, que integra o contraste.

As imagens das cartas seguem estas duas linhas. A representação tradicional vem da iconografia cristã, em que uma mulher verte líquido de uma vasilha para outra. Nas cartas, esta mulher pode ser substituída por um arcanjo (Miguel) e, curiosamente, a trajectória do líquido é geralmente oblíqua, isto é, claramente inverosímil. A simbologia dos elementos presentes na imagem vai sendo enriquecida ao longo dos tempos, até chegar à representação do baralho de Rider-Waite, em que a mulher-anjo tem um pé em terra e o outro na água; na sua testa, o símbolo do sol, no seu peito o triângulo, símbolo de perfeição. Estes elementos vão inspirar muitas das representações nos tarots mais recentes. Já na linha do Tarot de Crowley (desenhado por Frieda Harris) trata-se de uma representação da combinação alquímica, com uma personagem de dupla face que verte água e fogo para dentro da mistura que se gera num caldeirão. Aqui há uma clara intenção de mostrar a combinação de opostos (o que há de mais oposto do que água e fogo?) e, no duplo rosto, a harmonia da ambivalência.
Esta carta está associada astrologicamente a Sagitário, signo que representa o saber e as viagens. A letra hebraica que lhe corresponde é SAMECH ou SAMEKH, o ciclo interminável. O número 14 pode ser reduzido a 5 (responsabilidade e versatilidade) ou considerado como o dobro de 7, união de duas entidades puras que se juntam e atingem um novo estado de perfeição. O seu título esotérico: A Filha dos Reconciliadores, a Parteira da Vida.

Então, vejamos: temos pela frente ma semana em que somos inspirados a entender e assumir as contradições da nossa vida, conciliando-as para poder transformá-las. Não pode haver batota, é preciso olhar para todos os ângulos da nossa realidade, mesmo para aqueles que geralmente tentamos ignorar. O intuito é trabalhar essas contradições até conseguir uma combinação criativa que transcenda o problema e o transforme numa nova forma de equilíbrio.
Aproveitemos esta inspiração da Temperança para apaziguar contradições internas e potenciar os nossos talentos e qualidades. Há aqui um apelo à elevação pelo trabalho – seja ele remunerado ou não. O trabalho será o símbolo do melhor do que damos ao mundo, para ajudar a melhorá-lo. É importante que tenha um sentido, um propósito pelo qual valha a pena avançar e suportar as pedras do caminho. Juntemos essas pedras para fazer um castelo…

Imagem  – Tarot de Visconti-Sforza (séc. XV)

Clara Days

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