Por Clara Days:
Palavras-chave: passividade; espera; devoção; transcendência.

Entramos em 2018 com a energia do Dependurado, representante do Princípio da Transcendência. Ele ensina-nos que, mesmo quando não temos o poder ou a possibilidade de intervir nos acontecimentos que nos afectam, a passividade permite um trabalho interior de reflexão em relação aos problemas, que pode fazer com que nos elevemos acima deles e e assim os superemos, transcendendo o impacto que têm em nós.
Com o Dependurado vivemos num tempo suspenso, que nos põe de fora em momentos de mudança, mas que por outro lado nos permite ver esses momentos por diferentes prismas. É uma espera contemplativa, que cria condições para encontrar soluções, através da reflexão. Nada fazendo, não agravamos problemas, deixamos as circunstâncias evoluir, enquanto que a distância que somos obrigados a manter permite que sejamos mais objectivos na nossa análise e consigamos compreender melhor o que se está a passar, para resolver depois. O Dependurado ensina-nos a paciência, mas dá-nos o tempo necessário para a clarificação e a escolha.
Na leitura mais antiga do significado deste Arcano Maior 12, parece implícita uma ideia de martírio ou sacrifício para expiação de pecados, para eventualmente encontrar a redenção, plasmada a partir da doutrina do cristianismo.
Mas, hoje, a interpretação é mais espiritual e transcendental. Pessoalmente, associo sempre o significado desta carta a uma atitude semelhante ao que preconiza a Oração da Serenidade: encontrarmos a serenidade para aceitar aquilo que não podemos mudar, activarmos a coragem para mudar o que nos for possível e atingirmos a sabedoria de saber discernir entre as duas.

A carta é, muitas vezes, indevidamente, designada como “O Enforcado”. De facto, a personagem retratada não está sendo asfixiada em suspensão, antes pendurada por um pé, numa posição que deveria ser de desconforto mas onde vemos um estranho bem-estar, na sua expressão facial. A postura tem aspectos característicos que podem ser associados a rituais de sacrifício (mãos atadas nas costas, cruzamento da perna livre sobre a outra, objectos simbólicos presentes), mas um sacrifício aparentemente auto-infligido, ou pelo menos aceite, pela serenidade que nos é mostrada. Certas cartas parecem aludir ao castigo da avareza, onde o homem pendurado segura nas mãos sacos (de dinheiro?), sem querer largá-los.
O Dependurado está associado astrologicamente ao elemento Água, símbolo da vida emocional; também ao planeta Neptuno, da espiritualidade e da transcendência. O número 12 tem um valor simbólico importante em diferentes culturas: é recorrentemente escolhido para organizar estruturas espácio-temporais (12 meses do ano, dia de 12+12 horas, ciclos de 12 anos na astrologia chinesa…). A letra hebraica que lhe corresponde é MEM, a Fonte da Sabedoria. O seu título esotérico: O Espírito das Águas Poderosas.

Entramos no novo ano inspirados para poder parar e deixar correr acontecimentos, assim procurando sermos capazes da distância necessária para os podermos compreender melhor e vir a resolver futuramente. Pacifiquemos a nossa relação com o tumulto que possa estar na nossa vida. Pode ser que não haja nada a fazer, perante o que nos tem afligido; mas há sempre qualquer coisa a fazer por nós, mesmo que seja o mudarmos de direcção.
O momento não é de intervenção, é de reflexão. Aceitemos esta espera que nos permite vir a distinguir o essencial do secundário, reprogramar as nossas escolhas, rever as nossas prioridades. As árvores, no Inverno, parecem morrer, desfolhadas – mas dentro delas corre a seiva que um dia fará nascer flores e rebentos, quando o momento certo chegar.
Aceitemos um tempo suspenso, mas mantenhamos activa a seiva que nos alimentará no recomeço. Não é resignação, não é desistência: é sabedoria.

Imagem : Tarot Minchiate Fiorentine (1725)

Clara Days

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