Por Clara Days

Palavras-chave: solidão; retiro; introspecção; auto-conhecimento.

21 dias depois, volta o Eremita, nesta semana em que a Lua Cheia nos dará a sua visão maior (super Lua), ocorrendo também um eclipse total . É sabido o quanto os fenómenos lunares influenciam as energias na Terra, como as marés, mas também, nas tradições e na experiência, os nascimentos, o estado emocional de cada um e até as mudanças do estado de saúde dos doentes. A assinalar esta passagem astral excepcional, somos convidados para uma viagem interior.
Seremos o velho peregrino que procura o conhecimento mais profundo de todos: o de si mesmo, eco interior do Universo. A sós, sem pressa, tacteando o percurso que vamos desenhando, tentaremos compreender melhor o “porquê” do que somos.
Com o Eremita, como no ditado, o caminho faz-se caminhando. Apoiado no bordão da intuição, a lanterna que transporta deixa-o vislumbrar, a cada passo, o passo seguinte. Assim, vai traçando uma trajectória em que o importante não é tanto o destino, mas antes o percurso, o significado de cada passo. O conhecimento interior faz-se de pequenas descobertas que se somam e só farão plenamente sentido mais tarde, ou eventualmente poderão não fazer grande sentido. Mas cada pedacinho do nosso Eu interior que iluminamos, sobre o qual nos debruçamos, nos dará mais uma peça para compreendermos quem somos, de onde vêm os nossos medos, quais as raízes dos nossos anseios.
Quem melhor se conhece, mais próximo está da paz interior, para se poder abrir ao mundo e aos outros com mais confiança e convicção.

As imagens são conhecidas: o velho de capa e capuz, apoiado no bordão e transportanto na mão uma lanterna iluminada, ou uma ampulheta, símbolo do tempo, que para ele passa devagar. O cenário é natural e geralmente inóspito, e, se há companhia, é de animais, mas não domésticos: serão silvestres – borboletas, veados, lobos, mochos… – ou mitológicos, com a recorrência da representação de Cérbero, o cão de 3 cabeças que, na mitologia grega, guardava a entrada no mundo “inferior”. Há tendências modernas, nos inúmeros baralhos e ilustrações de Tarot que vão sendo publicados, onde a personagem do Eremita é evocada como metáfora, e assim encontramos os mais diversos recursos visuais para o simbolizar: pode ser o estudioso, mas também um pirilampo, ou uma tartaruga; pode ser associado a figuras históricas conhecidas, como o pintor Van Gogh.
Está astrologicamente associado a Virgem, signo mutante de terra, que nos fala de atenção aos detalhes. O seu número 9, em numerologia, é o do altruísmo e da compreensão. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão; o seu título esotérico – “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Estaremos então perante dias em que uma viagem interior nos será facilitada. Pode ser um tempo de maior recolhimento, como se a presença dos outros nos seja desnecessária ou até incómoda. Precisamos de estar a sós connosco, para nos podermos observar.
Não fujamos de nos questionar. Porque reagimos assim ou assado? De onde vêm certos medos e pensamentos, serão ecos de memórias de um outro tempo que correu menos bem? Será que hoje fazemos coisas que já não fazem sentido, apenas por hábito ou por inércia? Será que há desejos secretos a que podemos dar forma, encontrando maneira de exprimir ou concretizar algo que temos vindo a colocar na categoria dos sonhos?
Sejamos honestos para connosco, não vale fazer batota: aceitemos as nossas qualidades, assinalemos as nossas falhas. Ninguém está para nos julgar, não nos julguemos: o caminho é de auto-conhecimento. Podem vir mudanças, a partir daí. Mas a atitude, mesmo perante as falhas e os defeitos, é profundamente construtiva: se conseguirmos entender os “porquês”, poderemos conseguir desmontar as peças dos nossos mecanismos de relação com os outros e com as dificuldades da vida. Podemos limpar-nos de sentimentos de culpa que pesam e não resolvem.
Cada um de nós é um mundo para descobrir. Façamos a viagem.

Imagem: Tarot de Sebastian Domaschke, 2015 – “Auto-conhecimento”

Clara Days

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