Por Clara Days:
Palavras-chave: auto-estima; auto-domínio; motivação; equilíbrio.

Este Arcano Maior surge duplamente numerado: é o 11 na maioria dos baralhos, mas o 8 nos que seguem a troca com a Justiça, feita no de Rider Waite. Tem também duas designações mais comuns: Força, a clássica, ou Entusiasmo, a partir do Livro de Thoth, de Alistair Crowley. Crowley chegou a chamar-lhe Lust (luxúria), designação que tem sido abandonada e substituída por Passion (traduzida como “entusiasmo”).
Independentemente dos números ou designações, a imagem desta carta tem sempre dois elementos: uma personagem humana e um animal feroz, geralmente um grande felino, que aquela domina. Mas é importante dizer que, à excepção de algumas cartas do séc. XV, onde o animal é sovado com um pau, a personagem humana, geralmente uma mulher de atitude doce e compassiva, segura a boca do bicho ou controla-o sem aparente esforço, numa evidente cumplicidade. O humano domina a fera, mas a fera deixa-se dominar. Na realidade, a cena é de equilíbrio e harmonia.
Assim, temos a síntese da mensagem tradicionalmente atribuída a este Arcano: a racionalidade controla a voz do instinto, sem a sufocar ou anular. O instinto inspira, a razão controla e permite uma reacção equilibrada, que respeita a essência do impulso espontâneo.
A escola de Crowley vai mais longe e considera que este impulso “animalesco” é paixão, é a vitalidade entusiasmada que nos traz optimismo e nos leva a querer ir mais longe. Como se o instinto e a espontaneidade genuína sejam a chama que nos anima na persecução dos nossos objectivos, sobretudo os mais ousados.
Dito de outro modo: a explicação clássica foca-se no poder dominador do humano (o lado racional), enquanto que a escola de Crowley prefere salientar o dinamismo do impulso instintivo / animal. São verso e reverso da mesma medalha.

Das imagens das cartas falei atrás e pouco há a acrescentar. Astrologicamente, a Força (ou Paixão / Entusiasmo) está associada ao signo de Leão, da afirmação do eu e da vontade. A letra hebraica que lhe está associada é TETH , a serpente, ou a espiral que se interliga. Quanto ao 11, ele é considerado, em numerologia, um “número mestre”, cuja vibração denota inspiração, intuição e capacidade de levar a cabo as metas mais arrojadas ou improváveis. O seu título esotérico: “A Filha da Espada Flamejante” ou “O Senhor do Leão”.

Devemos ou não confiar no instinto? Na verdade, trazemo-lo na nossa carga genética, como um conjunto de reacções perante situações potencialmente perigosas, e que se destinam, basicamente, a preservar a nossa vida e a da nossa espécie. Mas há outra característica humana que é frequentemente associada a ele, tratando-se de uma espécie de leitura espontânea e imediata dos acontecimentos, situações e pessoas, a que chamamos intuição.
Ora, sendo o instinto uma característica comum a todos nós, como humanos, a intuição é uma construção pessoal onde a empatia e a experiência concorrem para nos dar um saber que não processamos mentalmente perante o novo ou inesperado, que é como um atalho directo entre o que percepcionamos e a interpretação imediata do seu significado essencial. Quanto mais avançamos na vida, mais constatmos que essa primeira interpretação, espontânea, aparentemente sem fundamento racional, é quase sempre certeira.
Qual a inspiração desta Arcano Maior Força, então? Virá para nos lembrar que não devemos deixar de levar em consideração o impulso reactivo que nos surge perante uma situação nova. Há sempre verdade nesse impulso, por mais que a lógica pareça contrariá-lo. No entanto, não nos guiemos cegamente por ele: enquadremos essa reacção “instintiva” na nossa resposta pensada, como se fosse um cenário emotivo, ou uma raiz, que impregna o que racionalmente decidirmos.
Perante a necessidade de avançar na vida, de enfrentar o desconhecido, ou de perseguir um sonho, devemos sempre ouvir o que dita o instinto, ou a nossa intuição, e não contrariar essa certeza íntima, antes integrá-la na busca de uma solução. Daí pode vir o rasgo de alma, a centelha que impulsiona, como poderá também vir o que nos prepara ou protege ao enfrentar os obstáculos do caminho.
Não somos seres mentais. Somos seres vivos e pensantes, fazemos parte de uma harmonia universal onde as mudanças são permanentes. Desrespeitarmos a nossa condição natural e as reacções espontâneas que sentimos, perante as voltas da vida, é querer que nos transformemos em robots. Não me parece que valha a pena seguir por aí.
Temos o poder harmonioso da Força a inspirar-nos, esta semana. Com ele poderemos ser mais certeiros, confiantes e entusiasmados, em cada decisão que venhamos a tomar.

Imagem : Antigo Tarot da Lombardia (ou Tarot Neoclássico) de Ferdinando Gumppenberg (1810)
Clara Days

 

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