Por Clara Days:
Palavras-chave: desapego; vontade; avanço; afirmação pessoal.

O Carro leva-nos numa viagem sem destino certo, movidos por uma força interior que apela ao progresso e à mudança. É o Princípio do Desapego.
Em certas etapas da nossa vida há momentos, que facilmente identificamos, em que uma súbita iluminação nos mostra que não estamos bem no lugar onde nos encontramos. É uma força que nos empurra para partir em busca de um novo lugar, mas não como um um desvio de trajectória, pois, na verdade, o essencial é sair dali e não tanto saber para onde.
Escolhemos partir. Vamos armados e defendidos, concentrados em dominar as rédeas dos animais que puxam o nosso carro. Se o rumo incerto se vai traçando com o desenrolar do tempo, a nossa protecção pessoal é forte e poderosa: escondemos as fragilidades e vulnerabilidades por trás de uma armadura, uma carapaça que mostramos aos outros e nos dá a aparência da autonomia e força de que precisamos, nesta demanda.
O interessante é que nos sentimos capazes de não olhar para trás. Se é certo que dentro da armadura levamos bagagem emocional e experiências passadas, o lugar de onde saímos já não fazia sentido para nós e, por isso, é fácil o desapego. Vão memórias, sim. Mas não tanto saudades.
Partimos a sós, com a nossa determinação pessoal. Sabemos intimamente que, venha o que vier, será para melhor. Quebramos amarras e dependências, dominamos cavalos que nos querem levar em sentidos diferentes, numa rota feita de escolhas pessoais, com a devida carga de responsabilidade.

As imagens das cartas diferem pouco na sua estrutura, sempre com os mesmos elementos: um condutor, um carro, animais que o puxam. Os animais são geralmente dois, tanto podem ser cavalos como bestas mitológicas, e, não raras vezes, cada um de sua cor ou cada um puxando para seu lado. O condutor vem geralmente armado, é um guerreiro que olha em frente e parece dominar perfeitamente a situação.
Este Arcano Maior está astrologicamente associado a Caranguejo, signo de água regido pela Lua, considerado o mais sensível do Zodíaco. A letra hebraica que lhe corresponde é CHETH ou CHET, a dinâmica do partir e regressar. O número 7 era considerado sagrado na tradição egípcia e surge recorrentemente associado a contagens com valor espiritual: os sete pecados mortais, os sete céus, os sete dias da semana, as sete cores do arco-íris… Os seus títulos esotéricos: “O Senhor do Triunfo da Luz” ou “O Filho dos Poderes das Águas”.

A energia desta carta mostra-nos que pode ser tempo de deixarmos para trás algo que nos esteja a prender, apostando na mudança pessoal. Pede audácia, auto-controle e convicção, nas escolhas que será necessário fazer.
É importante que sejamos capazes de nos desapegar do que nos atrofia, subjuga ou tolhe. É importante que saibamos proteger-nos nas decisões solitárias. É importante que estejamos ao leme na nossa rota e não nos deixemos guiar por forças ou vontades alheias.
O perigo é o de nos identificarmos com a carapaça que nos protege. Seria sinal de que o nosso lado sensível fica guardado demais, e isso não é bom: mais tarde, ou mais cedo, será importante que sejamos capazes de nos emocionar de novo. Sem emoção, sem sensibilidade, a vida fica muito mais pobre. Ainda que possam vir a doer, são a medida da nossa entrega íntima e do relacionamento construtivo com os outros.
Mas, para já, somos convidados a escolher, provavelmente a partir. Sem remorsos e sem saudade. Há coisas novas e boas para nós, algures, à nossa espera, se nos pusermos ao caminho.

Imagem : “Partida” – Sebastian Domaschke, 2014
Clara Days

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