Por Clara Days:
Palavras-chave: eliminação; transformação; metamorfose; renascimento.

Este começou por ser o Arcano Maior mais temido e aziago. Numerado a 13, era a carta “inominável”, quando a palavra Morte se eliminava, por superstição, do vocabulário corrente. E, no entanto, ela aparece aqui como representante do Princípio Universal da Transformação.
A Morte simboliza o fim que antecipa um novo começo. É a condição necessária para que possa haver mudança efectiva, transformadora: o velho tem de dar lugar ao novo, e só eliminando o que já cumpriu o seu papel arranjamos espaço para acomodar um novo começo, em moldes diferentes.
A Morte fala de transformações profundas, de metamorfoses. Nada poderá ficar como antes, quando ela expande a sua energia. O ciclo da vida depende disso, como elemento primordial, pois só com a permanente regeneração dos seres, passando por ela, é possível manter o equilíbrio natural.
A impressão global criada por este Arcano deve ser de mudança e de renovação, não de destruição irrevogável. A Morte pede que não tenhamos medo das perdas que ocorrem, sempre que há transformação, pois são o reverso dos ganhos, da novidade. Só se ultrapassa uma crise aceitando a transformação. Não podemos agarrar-nos ao que já está caduco, se desejamos progredir – sem Outono, nunca haveria Primavera.

Até ao século XX vemos recorrentemente, nas representações visuais das cartas, o recurso à imagem do esqueleto encapuçado que, com a sua foice de cabo longo, ceifa e decepa os corpos com que se cruza – de ricos e pobres, de poderosos e escravos, de santos e pecadores, sem distinção. Viaja por vezes a cavalo, um cavalo esquálido, ou mesmo um esqueleto de cavalo. O esqueleto é o corpo possível, para esta criatura desumanizada. No entanto, após as imagens mais primitivas, que se assemelham ao imaginário europeu na representação de pestes e matanças, vão começando, primeiro, a surgir símbolos de renascimento e poder transformador: a Morte transporta uma bandeira, em pose libertadora, ou representando o símbolo da rosa branca de cinco pétalas, da combinação eternamente vitoriosa dos elementos quádruplos e quíntuplos que compõem o cosmos. O rio da vida surge também, bem como o Sol nascente. Estes elementos adicionais vulgarizam-se a partir do Tarot de Rider- Waite (1910). Mas em versões mais recentes, há como que uma libertação da representação do esqueleto e a Morte surge representada nas mais diversas imagens metafóricas, como a de uma bela dama de tez branca, ou pela presença de animais simbólicos, como a borboleta, o colibri ou a Fénix renascida. A imagem aterradora e de destruição vai sendo progressivamente substituída por quadros pacíficos de novidade renovada.
Este Arcano Maior 13 referencia-se astrologicamente a Escorpião, signo fixo de água, da regeneração. O número 13 pode reduzir-se para 4, um número conservador e de estabilidade, ou analisado pelos seus componentes, 1 e 3, que preferem as novidades e a originalidade: esta contradição sugere a substituição de uma estabilidade pela novidade. A letra hebraica que lhe corresponde é NUN, o Messias, herdeiro do trono. O seu título esotérico: “O filho dos Grandes Transformadores” ou “O Senhor dos Portais da Morte”.

Com a energia da Morte, temos em nós a força para transformar. Podemos finalmente largar ou deixar cair o que nos tem pesado e que já provou ser-nos prejudicial. Mas, mesmo assim, há uma escolha para nós: ou nos focamos no que fica destruído e acabado, ou no que vem de novo para o substituir.
Está na nossa mão encarar a Morte como um progresso transformador, como um princípio que anuncia algo melhor, desvalorizando o fim que ela também representa. Perante as mesmas circunstâncias, temos o poder de escolher o ângulo para as vivenciar e ampliar a percepção do lado destrutivo, ou do lado transformador.
Não há vida sem morte, não há morte sem vida. Apostemos na vida…

Imagem : Tarot de Sebastian Domaschke, 2015 – “Transformação”

Clara Days

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