Por Clara Days:

Palavras-chave: moderação; combinação; transformação; espiritualização.

Na semana passada a Justiça fez-nos reflectir sobre as nossas escolhas e sobre a necessidade de equilibrarmos os contrastes, ou de nos ajustarmos às circunstâncias sem comprometer a nossa essência. Numa linha que podemos classificar como de continuidade, esta semana somos inspirados para integrar os opostos, isto é, combinar o que é aparentemente contraditório para transformar essa contradição em algo de novo e positivo.
A Temperança é uma das quatro virtudes cardinais do cristianismo católico, juntamente com a Justiça (cá está…), a Prudência e a Fortaleza. Derivam da classificação de Platão, na sua obra “A República”, onde a correspondente Moderação é associada a renúncia, auto-controle e auto-domínio. Digamos pois que a origem filosófico-teológica em que se baseia esta versão da carta realça uma componente comportamental com intenção restritiva dos impulsos e paixões.
Mas no Tarot os significados atribuídos a este Arcano Maior 14 têm sido alargados, sobretudo a partir do “Livro de Thoth” de Alistair Crowley (1944), que o associa a princípios alquímicos. Aliás, Crowley prefere falar da carta como “A Arte” (da alquimia) e associa-a directamente ao princípio “solve et coagula” (dissolve e combina, ou coagula). Este consiste em considerar que para haver transformações de substâncias é necessário dissolver primeiro, separando os diferentes elementos que as compõem, para depois os recombinar de outro modo, obtendo uma substância diferente.
A partir destas fontes inspiradoras, temos então que a carta da Temperança / Arte nos pede auto-domínio e a capacidade de encarar as situações da vida a partir da análise das suas componentes, para poder combinar de um modo criativo e positivo os elementos que as determinam ou afectam, transformando as dificuldades em possibilidades, para poder obter resultados inovadores e progressistas.

As cartas representam elementos directamente relacionados com cada uma destas origens: a Temperança deriva da imagem primitiva do cristianismo que nos mostra uma mulher ou anjo, que segura dois vasos e faz passar líquido de um para o outro, numa trajectória oblíqua que desafia as leis da gravidade. Por sua vez, a representação da Arte apresenta o caldeirão alquímico para onde um(a) oficiante derrama água e fogo, símbolos dos contrários que vão ser combinados. Qualquer destas duas versões pode apresentar outros elementos simbólicos, como, no caso da Temperança, a presença de um lago ou riacho na margem do qual a mulher / anjo opera, frequentemente com um pé em terra e o outro na água. No caso da representação da Arte, a presença do Leão e da Águia (animais de poder dos elementos Fogo e Água) e o desdobramento do rosto da personagem humana em duas caras, uma iluminada, a outra sombria.
O Arcano Maior 14 corresponde astrologicamente a Sagitário, signo que representa o saber e as viagens. A letra hebraica que lhe corresponde é SAMECH ou SAMEKH, o ciclo interminável. O seu número 14 pode ser reduzido a 5, que simboliza responsabilidade e versatilidade, ou considerado como o dobro do 7, unindo duas entidades puras que, juntando-se, atingem um estado de perfeição mais elevado. O seu título esotérico: A Filha dos Reconciliadores, a Parteira da Vida.

Esta semana é-nos sugerido que continuemos na linha da anterior, desta vez olhando para os problemas da nossa vida com uma intenção analítica, procurando entender-lhes os contornos mas, sobretudo, as diferentes partes ou elementos. Isto exige uma atitude de contenção e alguma capacidade de distanciamento, numa visão de cima para baixo.
Antes, foi-nos pedido que nos ajustássemos à realidade. Agora, somos inspirados para dissecar essa realidade, para lhe entender os contrastes e ver de que modo é possível recombiná-los, com diplomacia e moderação. A intenção é conseguir transformar dificuldades em oportunidades, ou em soluções.
Há sempre novos ângulos para analisar uma situação, novas maneiras de olhar para entender um problema. Pacificando a nossa reacção emotiva, façamos esse exercício, em relação à nossa situação actual. Só podemos trabalhar com a realidade se a compreendermos, mas também respeitando as circunstâncias. No entanto, há sempre um modo diferente de conciliar, uma nova combinação que nos permita uma saída criativa e transformadora.
Com moderação e respeito, façamos o que está ao nosso alcance para transformar o que nos aflige.

Imagem : Tarot de Crowley, com desenhos de Frieda Harris (década de 1940, 1ª edição em 1979)

Gostou? Contribua com um donativo para o centro de acolhimento/canil das Caldas da Rainha que a Clara apoia: CRAPAA

IBAN PT 500 455 130 401 487 625 979 3

Paypal crapaa.animal@gmail.com

Anúncios