Por Clara Days:
Palavras-chave: Movimento; destino; karma; ciclo

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o ser, muda-se a confiança
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades”
(Luís Vaz de Camões)

A Roda da Fortuna, também designada como da Vida, representa o Princípio Universal do Movimento e da Expansão, em permanente mudança, com ciclos intermináveis em que os altos e baixos se sucedem, em fluxos e refluxos, avanços e recuos, como num movimento circular, ou em espiral. Vem inspirar-nos nesta semana de entrada do Sol no signo de Leão, em que teremos um eclipse da Lua de grande intensidade, um momento astronómico especial que relembra a nossa ligação às leis da física e da natureza, onde o movimento cíclico é uma constante.
Tudo está em movimento e a aceitação da mudança resulta como uma condição de sobrevivência. Essa permanente transformação faz-se de modo cíclico, nas coisas naturais: a noite que sucede ao dia, o desenrolar das estações do ano, as fases da Lua, a evolução das marés… No entanto, vai havendo sempre acontecimentos naturais imprevisíveis e de consequências incontroláveis – como as alterações climáticas que vêm agora interpelar com tanta intensidade a intervenção do Homem na Natureza.
No plano humano, ou pessoal, podemos encarar a evolução dos acontecimentos com determinismo (as coisas terão de acontecer, façamos o que fizermos) ou introduzir a noção de que há sempre alguma dose de excepção, de imprevisibilidade, e também que as nossas decisões e os nossos actos têm o poder de interferir no decurso dos acontecimentos e assim transformá-los qualitativamente, em maior ou menor grau.
A noção de Fortuna como Destino, numa rota de ascensão e queda, contínua e inevitável, fica muito aquém daquilo que realmente nos acontece na vida. Certo, vivemos ciclos constantes e a mudança é permanente; mas a nossa vontade, por acção e também por omissão, interfere sempre nos resultados. O que fizermos, de algum modo se repercutirá na nova ordem da mudança e poderá mesmo retornar transformado (um pouco como nas leis do Karma).

A imagem iconográfica da Roda da Fortuna aparece, pelo menos, desde os sarcófagos egípcios, e acompanhou o imaginário medieval europeu, surgindo nos mais diferentes suportes, desde iluminuras de manuscritos a vitrais de igrejas, até às cartas de Tarot. Há autores que referem a sua existência como símbolo em obras da cultura céltica ancestral. Trata-se de uma dama vendada (Fortuna) que faz girar uma roda, semelhante a uma roda de fiar de grandes dimensões. No Tarot mais antigo (secs. XIV e XV), como nas outras representações de época, colados a essa roda estão pessoas, ou animais simbólicos, em ascensão, no topo ou em queda. É recorrente que os que ascendem se encontrem em estado de graça ou de felicidade, enquanto que os que descem mostrem desgraça ou influências maléficas. No topo, o equilíbrio (por exemplo, um Rei coroado), mas que se sabe passageiro. Na base, frequentemente, suportando a roda sobre as costas, em posição de gatas, está um velho barbado – o declínio, a subjugação total. Podem surgir, adicionalmente, elementos simbólicos com diferentes significados, como a serpente, ou os animais de poder representativos dos quatro elementos primordiais, ou raios celestes. A mulher que faz girar a Roda da Vida foi progressivamente desaparecendo das representações, nas cartas; mas a roda que gira é uma constante, até aos baralhos de Tarot mais contemporâneos e eclécticos, que a referenciam recorrentemente aos ciclos da natureza.
Em Astrologia a carta da Roda é associada a Júpiter, Pai dos deuses, planeta da expansão. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O 10 pode ser reduzido a 1, o princípio, a unidade, mas é ainda mais significativo como elemento estruturante das bases matemáticas de explicação do Universo, para os pitagóricos e os cabalistas. O seu título esotérico é “ O Senhor das Forças da Vida”.

Para inspirar esta semana é-nos mostrado que o mundo tem sempre oportunidades para nós, que podem surgir em qualquer momento, pois a mudança é a regra da vida. Que fazemos, com essas oportunidades? Como nos preparamos, como decidimos, como agimos, para podermos ser o elemento potenciador da mudança, a nosso favor, expandindo as possibilidades mais além?
Há neste Arcano Maior 10 uma mensagem aparentemente contraditória, com a qual devemos ser capazes de jogar. Se, por um lado, para a sobrevivência primária é necessário que os movimentos ascencionais e descendentes dos nossos ciclos de vida se sucedam e equilibrem, por outro, o que nos vai acontecendo reflecte sempre, em alguma parte, as decisões anteriores que tomámos, o que decidimos e o que fizemos com o que vivemos para trás, dando-nos ainda oportunidade de introduzir elementos pessoais que transformem a evolução futura. E, depois, há os inevitáveis acontecimentos fortuitos, aos quais teremos de ser capazes de reagir, nos ajustar ou contrapor.
Ciclo, determinismo, livre arbítrio, karma, vontade, equilíbrio dinâmico, movimento perpétuo… Tudo isto é lembrado pela Roda da Fortuna. Deixar a vida apenas acontecer ou interferir no curso da vida, está nas nossas mãos. O resultado pode ser para melhor, ou para pior. Mas sabemos que tentámos. Que agarrámos a oportunidade. Que procurámos ir mais longe, ou fazer diferente.
No fim de tudo, há uma frase francesa que resume o essencial: “Mieux vaut avoir des remords que des regrets” (em tradução livre: é melhor arrependermo-nos de algumas coisas que fizemos do que constatarmos que nunca arriscámos tentar).
Um bom eclipse para todos vós!

Imagem: Wildwood Tarot – Will Worthington (Ilustrador) – 2011

Clara Days

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