Por Clara Days:
Palavras-chave: Intuição; sonho; emoção; passado que prende.

Após um mês intenso a nível astral, em que tivemos um eclipse da Lua e outro do Sol, vem agora esta carta inspirar-nos para que sejamos capazes de entrar nas nossas próprias profundezas, enfrentando os nossos medos.
O Arcano Maior 18, A Lua, convida-nos para esse olhar íntimo. Ela representa o lado escuro do Universo. Pertencendo ao terceiro septenário, aquele que agrupa os arcanos correspondentes à nossa relação com os outros e com o Cosmos, às dimensões do transcendente e do transpessoal, parece paradoxal que esteja aqui, quando nos convoca para nos virarmos para dentro. Mas, na realidade, vem ajudar-nos a visitar a sombra, como condição necessária para que possamos encontrar caminho para a nossa própria luz, conectada com o Todo universal.
Com a Lua, vem a relação que temos com as manifestações do nosso inconsciente, com os sonhos e os pesadelos, com os medos mais profundos e enraizados, aspectos que tentamos ignorar no dia a dia, que tentamos mascarar ou desvalorizar na maior parte das vezes. Ao pedir uma visita à nossa sombra, ela pede que sejamos capazes de a aquietar e iluminar.
As nossas experiências negativas, sobretudo as mais precoces, da infância, deixam na memória cicatrizes fundas em que não queremos tocar, pelo tanto que nos doem. Ir ao seu encontro, na viagem de auto-conhecimento pedida pela Lua, é mais difícil e doloroso do que se possa pensar. Mas é um passo necessário na viagem de construção do nosso ser completo, pacificado, equilibrado. Antes da Lua, veio a Estrela, que mostrou um caminho espiritual. Depois da Lua virá o Sol, que nos permitirá a expansão positiva para fora e para os outros. A Lua está então aqui a dizer que, no nosso caminho de conhecimento e elevação, é preciso compreender, acomodar, aquietar as dores da alma.
É preciso conhecer a sombra, para valorizar a luz.

As imagens das cartas tiveram dois caminhos de referência, desde os Tarots mais antigos. Num, aparecem os cientistas, astrónomos / astrólogos, ou pessoas (mulheres) em interacção ou observação daquele astro. Mas no o séc. XVII, nos diferentes baralhos que são designados genericamente como “de Marselha”, ela ficou associada a outros símbolos e elementos: uma Lua com perfil de rosto humano que parece atrair lágrimas de várias cores vindas da terra; cá em baixo, dois cães (ou lobos?) mostram na sua atitude corporal que estão atentos a ela, ou a uivar-lhe; ao fundo há duas colunas, geralmente uma branca e a outra preta, que enquadram lateralmente a imagem; em baixo, água de onde sai um lavagante, ou caranguejo. Esta versão inspirará a maior parte das representações desde então, até agora, que recorrem a um ou mais destes elementos figurativos.
Curiosamente, esta Lua do Tarot corresponde ao signo de Peixes, da devoção, da transcendência, enquanto que a Lua astrológica está referenciada ao arcano 2, a Sacerdotisa. A letra hebraica que corresponde à Lua do Tarot é KOPH, ou KUF, um ciclo de tempo. O seu número 18 pode reduzir-se a 9, associado ao altruísmo, fraternidade e espiritualidade; mas na numerologia cabalística o 18 representa imaginação, instabilidade e algo oculto. O seu título esotérico é “O Regulador do Fluxo e do Refluxo”.

Na semana que se avizinha, é provável que sejamos importunados por momentos de confusão ou medo, com alguma conflitualidade interior. Pode ser sentido o vir à superfície de aspectos da vida em que não pensávamos há muito, memórias profundas e quase esquecidas, para nos inquietar.
Podemos ter duas reacções perante isto: procurar compreender, ou deixar que os medos nos paralizem. Estas visitas ao nosso lado sombrio permitem uma abertura para que o tentemos conhecer melhor, ao invés de nos assustarmos com ele. Certamente, é preciso coragem para confrontar medos, obsessões ou paranóias, radicadas em memórias dum passado doloroso. Mas só procurando entendê-los os poderemos integrar ou ultrapassar.
Quantas vezes reagimos a uma situação do quotidiano de um modo excessivo ou despropositado? E, se tomarmos atenção, cada uma dessas reacções foi provavelmente desencadeada por algo que se assemelha a um acontecimento passado, que nos traumatizou. Reagimos agora como se fosse no passado, mas as circunstâncias são outras, o que é fácil de compreender, racionalmente. Só que a memória emocional é irracional…
Preparemo-nos para tentar analisar as nossas próprias reacções, como manifestações desses traumas. Procuremos iluminar essas zonas dolorosas da nossa memória afectiva, com o olhar adulto de quem quer compreender. O presente ficará bem mais claro, se buscarmos o entendimento da escuridão interna.
Como cantaria Rui Veloso, nas palavras de Carlos Tê: “Chamemos-lhe apenas o lado lunar; mostra-me o teu lado lunar…”

Imagem : Tarot J. J. Swiss de Johannes Müller (1869)

Clara Days

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