Por Clara Days:

Palavras-chave: eliminação; transformação; metamorfose; renascimento.

Na semana em que o Sol se despede de Leão para entrar em Virgem, a Morte vem falar-nos de um tempo que pode ser profundamente transformador, em que podemos, em parte ou nalguma dimensão, dar a volta à nossa vida.


Ela foi a carta “Inominável”, numerada com o 13 do azar, na tradição crístã europeia. Nos baralhos mais antigos, não está escrito o seu nome, como se a simples escrita ou pronúncia da palavra “morte” pudesse trazê-la, como um chamado. Também o número azarento era frequentemente suprimido no desenho.
E, no entanto, a Morte do Tarot fala do novo que substitui o velho, de um fim que contém em si a semente de um recomeço. Há uma crise implícita, nesta carta, mas com sentido renovador. O Tarot de Osho designa-a como “A Transformação”, o que corresponde bem melhor ao papel que desempenha entre os Arcanos Maiores.
O receio profundo que o Arcano 13 causava, ou causa ainda, pode traduzir-se num ditado antigo: “Mais vale o mau conhecido do que o bom por conhecer”. Aqui se diz que há em muitos de nós um medo de dar o salto em frente para sair de uma situação negativa, porque, de algum modo, nos acomodámos a ela e aprendemos a viver assim, enquanto que, depois do salto para o desconhecido, sabemos que nada será como antes, ainda que possa ser efectivamente melhor. É o medo de correr riscos, por não se saber exactamente os contornos do que possa vir daí, sendo óbvio que não haverá volta atrás possível.
Não esqueçamos que esta Morte é uma carta de crise, mas de uma crise que tem em si o potencial para ser transformadora.

As imagens tradicionais das cartas estão associadas ao imaginário medieval europeu, muito comum nos manuscritos da época. É a Morte como “ceifeira da vida”. Trata-se de representar a personagem como um esqueleto, geralmente encapuçado, por vezes a cavalo, mas transportando sempre uma foice de cabo longo com a qual matará, tirando a vida aos seres humanos, ricos e pobres, também recorrentemente representados no chão, por vezes com cabeças ou membros decepados. Assim vai sendo até ao século XX, sobretudo a partir do tarot de Rider – Waite (1810), em que surgem símbolos que enobrecem papel desta personagem antes sinistra: a bandeira negra com a rosa branca de cinco pétalas, o sol nascente, o rio, a serpente, o escorpião, a águia. Recentemente, chegamos a representações simbólicas mais ou menos relacionadas com transformação, sem qualquer referência ao esqueleto: borboletas, rosas vermelhas ou brancas, fogo, pessoas ou seres alados, aves como o colibri, personagens etéreas de contornos transparentes…
A Morte está associada astrologicamente a Escorpião, signo de regeneração, onde o Sol passa no Outono europeu, transformando em húmus fértil os despojos das folhas vivas desse ano. O número 13, para os Aztecas, era o que regulava os ciclos de tempo; na numerologia cabalística, entre outros significados, é o número da regeneração espiritual. A letra hebraica que corresponde a este Arcano Maior é NUN, o Messias. O seu título esotérico: “O filho dos Grandes Transformadores” ou “O Senhor dos Portais da Morte”.

Algo de velho tem de acabar para dar lugar a algo novo. Temos nas nossas vidas pesos mortos que precisam de ser largados e ultrapassados de uma vez por todas, se o que queremos é que as coisas se transformem, que possam evoluir para melhor. Há situações em que se torna claro que o velho e o novo não podem coexistir, e, se vemos bem o que acaba, preparemo-nos então para o que virá.
A inspiração para esta semana pede que arrisquemos a transformação, a regeneração. Que entendamos que, se há necessidade de que algo na nossa vida acabe, é também porque só nesses termos poderemos recomeçar. E, perante qualquer crise pessoal, a disponibilidade para a transformação que venha a ser necessária pode ser a chave para a sua ultrapassagem.
Não há conforto, se estamos num lugar onde já não há condições para a felicidade. Pode haver hábito, pode haver conformação, mas nada disso nos faz felizes. Para perseguir a felicidade, é preciso arriscar o desconhecido.
Certo, não ficará como antes, se seguirmos o impulso desta Morte. Mas o mais provável é que fique mais claro, mais aberto a que possam acontecer as coisas diferentes, transformadoras, melhores.
A Morte, no Tarot, mais do que carrasco ou coveiro, pode ser a parteira duma nova vida. Para ultrapassar a crise, poderá ser um parto sofrido, mas com final feliz. Arrisquemos.

Imagem : Tarot Gringonneur de Pellegrino Prisciani, séc. XV

Clara Days

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