Por Clara Days:
Palavras-chave: imparcialidade; causa e efeito; reajuste; responsabilidade

Ultrapassemos primeiro a possível confusão: esta carta sempre foi numerada com o 8, mas no baralho de Rider-Waite (1910) inverte a posição com a Força e aparece com o 11. Por outro lado, se tradicionalmente é designada como Justiça, o Livro de Thoth de Crowley (1944) alarga-lhe o significado, ao passar a chamar-lhe Ajustamento.
A Justiça implica imparcialidade e um olhar para todos os lados de qualquer questão, sem sobrevalorizar algum ou desvalorizar outro. Naturalmente, todos somos de alguma maneira tendenciosos, e esta carta apela a que sejamos capazes de transcender essa visão distorcida, contaminada pelos nossos anseios e desejos.
Mas há também a dimensão de Ajustamento, pois temos consciência de que a evolução da vida e das suas circunstâncias se insere na permanente mudança do equilíbrio cósmico e, assim, precisamos de estar atentos ao que nos rodeia e avaliar a nossa postura perante a sucessão dos acontecimentos, aceitando a realidade ao ponto de sabermos enquadrar-nos nela.
Trata-se pois de um Arcano Maior de racionalidade e decisão, que procura o equilíbrio por oposição à subjugação, mas também pede que sejamos capazes de lidar com a realidade como ela é, e que tomemos as decisões necessárias ou acertadas, deixando fluir aquilo que não está ao nosso alcance mudar. A forma como lidamos com as contingências, nas circunstâncias da vida, pode sempre ser mais sábia, se formos capazes de nos ajustar à situação, mas sem subverter a essência dos nossos princípios.
Procurar o equilíbrio é um exercício difícil, que se torna fundamental em certas situações. O Tarot de Osho chama a esta carta “A Coragem”, valorizando a determinação pessoal que é preciso assumir, nas decisões em que queremos ser justos. É um Arcano que nos implica na vida comum e exige o cumprimento do preceito universal do respeito pelos outros e da valorização do seu lugar no mundo, em relação connosco.

Visualmente, tudo se passa geralmente entre três elementos: uma mulher/anjo, uma balança, uma espada. As imagens com que carta de Tarot tem sido representada, ao longo dos tempos, colam-se à representação tradicional da justiça do direito legal – a mulher, ou anjo, segura uma balança que tenta pôr ou manter em equilíbrio. Com uma diferença: enquanto que a mulher da justiça legal está sempre vendada, para não ser influenciada pelo que vê, esta, do Tarot, está de olhos bem abertos, procurando o equilíbrio dos pratos da balança em face da realidade. Apenas em alguns, raros, baralhos a personagem surge de olhos fechados. O terceiro elemento, a espada que a mulher empunha, pode ser encarado como uma alusão à radicalidade de certas decisões (lembremos o mito bíblico da justiça salomónica, por exemplo).
O Arcano Maior Justiça está associado astrologicamente ao signo de Balança, da permanente busca de equilíbrio e harmonia. O número 8 representa, na numerologia pitagórica, poder e responsabilidade; na cabalística, fala de imparcialidade, disciplina e decisão. A letra hebraica que está associada a este Arcano Maior é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. Título esotérico da carta: A Filha dos Senhores da Verdade ou o Controlador da Balança.

Passa a Lua cheia de hoje e iniciamos um novo ciclo, de quatro semanas. A carta que aqui nos inspira sugere que, nos próximos dias, procuremos ajustar-nos, mas também ser justos. Não é tempo de forçarmos as coisas para que corram ao nosso jeito, mas antes de sabermos ler a situação em que estamos com a imparcialidade possível e encontrarmos a postura certa para nos integrarmos nas nossas circunstâncias, em respeito pelos princípios essenciais que nos caracterizam.
É também tempo de olharmos os outros com a generosidade da isenção de preconceito. Se toda a medalha tem o seu reverso, também toda a explicação da realidade reflecte, de algum modo, a posição de quem a descreve. Há muitas verdades diferentes, perante a mesma realidade. Tentemos não advogar uma delas, mas perceber o todo, para que as decisões que tomemos favoreçam realmente os envolvidos, sejam quais forem as suas posturas pessoais.
A Justiça, ou Ajustamento, é a primeira etapa do segundo septenário dos Arcanos Maiores do Tarot, onde se reunem as cartas que nos pedem que trabalhemos para estarmos de bem connosco, que reconheçamos o nosso lado íntimo e verdadeiro.
Acalmemos as paixões. Encaremos a realidade com coragem. Procuremos vê-la sob diferentes prismas. Tentemos ajustar-nos, sendo justos para connosco e para com os outros. Por vezes, o que é justo e necessário não é o que desejamos, mas podemos ser nós próprios a tomar consciência disso e a tomar as decisões certas para agir em conformidade.
Uma boa semana para todos vós.

Imagem : Tarot de Marselha (séc. XVIII)
Clara Days

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