Por Clara Days

Palavras-chave: Vitalidade; controle suave; motivação; paixão.

Na semana passada tivémos a Justiça, que inverte com esta Força a posição numérica, em alguns baralhos de Tarot (entre o 8 e o 11). Pediu-nos aquela que nos ajustássemos à realidade e procurássemos a imparcialidade. Hoje, a Força / Entusiasmo pede-nos auto-disciplina e contenção, mas numa atitude de respeito pelo nosso instinto e integrando o impulso natural.
A mulher e a fera mostram aqui uma doce cumplicidade, em que a primeira parece dominar a segunda, mas a segunda deixa-se levar. Não há imposição, não há controle violento, antes compreensão e afecto. Nesta metáfora, razão e instinto dialogam, a primeira controlando o segundo, mas dando-lhe espaço e atenção.
Vejamos o significado das designações mais conhecidas para esta carta: ela é a Força, relacionada com o conceito de Fortaleza, uma das virtudes cardinais do cristianismo, tradição cultural onde o Tarot tal como o consideramos se expandiu, primitivamente. A Fortaleza pretende assegurar a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. Trata-se da força como “força de carácter” e tem como representação simbólica uma mulher que segura a boca aberta de um leão. No caso do Tarot, o sentido alarga-se sobretudo porque o leão (ou outra fera que lhe corresponda) é considerado como sujeito a respeitar e não apenas objecto do controle da mulher.
Se tomarmos antes a designação de Crowley no Livro de Thoth, temos a designação de Entusiasmo, tido como a energia vital que nos motiva e que traz Paixão aos nossos actos. Antes, o mesmo Crowley a designou como “Lust” (Luxúria, com um sentido mais lato do que o do apetite sexual). Motivação, entusiasmo, paixão, são qualidades aqui realçadas, como potenciadoras da nossa vontade, impulsos positivos de reforço que nos impelem a ir mais longe nos nossos empreendimentos, sem perder o ânimo.
No Tarot de Osho, também designado como Tarot Zen ou de Transformação, ela é chamada de Avanço, também de Ruptura, valorizando-se assim o resultado do impulso e não o impulso propriamente dito. Noutras abordagens simbólicas, surge ainda este Arcano Maior designado como Persuasão, realçando a dimensão de “controle suave” no significado da carta – a persuasão implica aceitação, não é uma imposição astuciosa, como infelizmente por vezes é tomada.

Olhando para as imagens das cartas, a origem icónica ligada à Fortaleza do cristianismo é evidente: ela é a mulher que segura a boca aberta do leão, impondo-se-lhe sem violência. No entanto, há imagens de cartas mais antigas, do séc. XV, em que se trata de um homem que sova o animal com um pau, sem dó nem piedade. Mas, de então para cá, há uma constância nas imagens das cartas que representam a atitude cúmplice de uma mulher para com o leão, ou outra fera, consoante o referencial cultural a que cada baralho está associado: pode ser um javali, um animal mitológico – unicórnio, dragão, por exemplo -, um urso, um touro, um tigre, ou mesmo uma abelha gigante. No desenho de Frieda Harris para o Tarot de Crowley o animal é um leão de sete cabeças, numa referência ao mito bíblico de Babilónia, a mulher que cavalga a Besta.
Astrologicamente este Arcano Maior está associado a Leão, regido pelo Sol, de expansão, domínio e liderança. A letra hebraica que lhe é associada é TETH, a serpente, a espiral que se interliga. O seu número 11 é um “número mestre”, símbolo de idealismo; na numerologia cabalística, o 11 representa sucesso, poder e equilíbrio entre espírito e matéria. Título esotérico desta carta: “A Filha da Espada Flamejante” ou “O Senhor do Leão”.

Motivação, auto-controle, respeito pelo instinto, paixão, são estas algumas das ideias que pretendem inspirar-nos na semana que hoje entra. Há aqui uma noção de equlíbrio entre instinto e razão, com o nosso lado racional a controlar docemente o irracional, que é importante valorizar.
Para muitos, o mês de Setembro representa o recomeço da vida social organizada, da rotina, após o período de ruptura que foram as férias de Verão. Estamos num momento do ano de reorganização social, no hemisfério norte. Então, agora que repousámos e estamos de volta à acção, ouçamos o instinto, para o integrarmos nas nossas decisões. Ele traz consigo aquela convicção motivadora cujo impulso devemos aproveitar. Mas não deixemos de o interpretar à luz da razão, canalizando-o para uma atitude consentânea com o convívio, com a vida social.
Sejamos persuasivos. Não nos imponhamos pela voz que se levanta, antes pelos argumentos convincentes. Deixemos transparecer a nossa paixão por aquilo que queremos muito, por aquilo em que acreditamos, pois o entusiasmo contagia e imprime um impulso positivo às decisões e empreendimentos.
Setembro é, para os que vivemos a norte do Equador, o tempo da “rentrée”. Recomecemos animados, inspirados pela paixão, agora que podemos imprimir uma dinâmica renovada ao nosso quotidiano.

Imagem: Tarot de Visconti-Sforza (séc. XV)

Clara Days

 

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