Por Clara Days
Palavras-chave: revelação; iluminação; absolvição; reparação.

Espera-nos o Equinócio de Setembro, no fim da semana que hoje começa, quando em toda a Terra o dia e a noite são iguais. Um tempo de transição de ciclo natural, reverenciado pelo paganismo pelo seu poder simbólico. No hemisfério Norte, celebram-se as colheitas e prepara-se a entrada no Outono e no tempo frio, enquanto que no hemisfério Sul a fértil Primavera se anuncia, em todo o seu esplendor.
A carta que nos inspira para este tempo de transição é o Julgamento, também designado por Eão (ou Eon), símbolo de um momento de revisão e regeneração, quando podemos analisar o passado recente de um modo abrangente e orientado para uma mudança de ciclo.
Este Arcano Maior 20 dá-nos elevação e, assim, permite-nos um nível de distanciamento em relação aos acontecimentos recentes, o que proporciona uma visão mais neutra dos nossos actos e decisões. É um tempo de avaliação, orientado para o retirar de lições e a reparação dos erros, para preparar o tempo que se segue. Não é tempo de punição (no caso, de auto-punição), mas de absolvição e regeneração. Propõe a tomada de consciência para criar mudança no sentido de um futuro mais coerente e iluminado.
Nesta perspectiva espiritual, digamos que se trata de um salto qualitativo de consciência, visando uma transição para uma nova era ou capítulo. Há nesta carta a alusão ao conceito de julgamento pelos actos passados, explícita ou implícita em muitas religiões como um acto divino e que, no caso do Tarot tradicional europeu, está ligada à ideia cristã de Juízo Final e entrada (ou não) no Reino de Deus.
Alistair Crowley escolhe a designação de Eão, que no gnosticismo é a designação de um ciclo de tempo, termo que também é utilizado em geologia, como maior subdivisão de tempo na escala de tempo geológico. Assim, refere-se às mudanças de ciclo temporal. O Tarot de Osho escolhe para esta carta o título de “Além da ilusão”, propondo uma visão desassombrada, enquanto que outros baralhos escolhem para este arcano termos como Ressurreição ou Renascimento.

As imagens das cartas colam-se à iconografia cristã das trombetas celestes e da ressurreição dos mortos para o Juízo Final. Primitivamente, são muito literais, representando pessoas que se elevam das suas campas no cemitério, enquanto que no céu um anjo ou anjos fazem soar as suas longas trombetas. Estes elementos – personagens em elevação, anjos e trombetas – vão sendo transversais e inspiradores de representações mais livres e distanciadas do cristianismo. Alguns baralhos fazem referência à iconografia de ritos de outras raízes culturais e espirituais, como no caso do Tarot de Crowley, que escolhe a raiz egípcia e usa a figura de Hórus na versão de deus-infante, protegido pela serpente de duas cabeças que representa o deus da sabedoria. Em baralhos recentes mais sincréticos, surgem símbolos pagãos de fertilidade, renascimento e sabedoria, como a lebre, a borboleta ou o mocho; pode ainda surgir como símbolo a Fénix renascida.
Astrologicamente, o Arcano Maior Julgamento corresponde a Plutão, planeta de transmutação e regeneração. A letra hebraica que lhe está associada é SHIN ou SIN, o aperfeiçoar da consciência. O número 20, embora possa ser simplesmente reduzido a 2 (cooperação e dualidade), tem um significado próprio na numerologia cabalística, onde representa o sentimento de justiça e a reparação. O título esotérico para o Julgamento ou Eão é “O Espírito do Fogo Fundamental”.

Temos então para esta semana uma inspiração que nos pode permitir avaliar o passado recente de uma posição consciente e elevada, olhando para o nosso percurso com sentido crítico e construtivo. É possível discriminar os erros e os avanços, corrigindo uns e valorizando os outros. É importante que não façamos juízos de valor e que sejamos aliados de nós próprios, no sentido de querermos reparar erros e seguir em frente, e não ficar ruminando em auto-depreciação ou auto-comiseração.
Os erros ensinam mais do que muitos bons passos, se soubermos tirar as lições. É esse o propósito, escolhamos esse enfoque. Olhemos para o passado recente para criarmos condições de mudar uma página, ou de aperfeiçoar o percurso. Resolvamos o passado, com uma nova compreensão que abra caminho para novas atitudes e decisões.
Transitemos por este Equinócio com sentido crítico e pacificação interior.

Imagem: Tarot Visconti, colecção Cary-Yale (séc. XV)

Clara Days

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