Por Clara Days:
Palavras-chave: potencial; confiança; inocência; caminho.
Nesta semana, de Lua Cheia em Touro e entrada do Sol em Escorpião, vem para nos inspirar, reforçando essa energia de começo, o Louco. Ele é o Arcano Maior Zero do Tarot, único e original, princípio e fim. O Zero, tal como o vazio, não deve ser considerado como a ausência de tudo, mas antes como a potencialidade mais absoluta.
Assim sendo, o Louco representa esse potencial, sendo capaz de se lançar em qualquer direcção, sem medir consequências e sempre crente em que, duma maneira ou outra, seguirá um caminho certo. Para o Louco não são precisas certezas, antes confiança. Inocente e despojado, nada tem a perder, porque nada tem. Tudo o que vier será ganho, no sentido mais lato do termo.
A vontade do Louco é um impulso irracional, instintivo e espontâneo. Ele é a eterna criança, sempre disposta a deslumbrar-se e a descobrir, capaz de encontrar interesse em pequenas coisas que a vida adulta nos habituou a banalizar ou desprezar. O seu saber vem de dentro, não é formal nem académico, e essa liberdade confere-lhe uma clarividência muito particular.
Se encararmos a sequência das cartas de Tarot como um caminho de crescimento espiritual e de auto-conhecimento, ele é a personagem, o caminhante. Chamam-lhe Louco, mas o seu saber é mais profundo do que o pensamento, mais verdadeiro do que a razão, muitas vezes ilógico. Ele não tem preconceitos e não elabora juízos de valor. Faz o seu percurso de aprendizagem, sujeitando-se a diferentes situações, enfrentando dificuldades, mas não perde a inocência, não se deixa corromper.
Por isso, ele tanto é a primeira como a última carta do baralho. No final, como em toda a evolução cíclica, está renovado, talvez mais auto-consciente, talvez mais sábio, mas capaz de iniciar de novo uma viagem sem destino certo. O fim une-se ao princípio, sim, mas em renovação, de preferência como uma espiral ascendente, em patamares sucessivamente mais elevados de consciência e auto-conhecimento.
As primeiras aparições do Louco, no século XV, são representações de um adulto apatetado, muitas vezes alvo da maldade alheia – de fralda, pode ser acompanhado por crianças que o apontam ou seviciam. Vem a ser apelidado como “Le Mat” ou “Il Matto”, que em francês e italiano designam o Bobo: aquele a quem na corte era permitido, em ambiente lúdico, usar a ironia para denunciar verdades duras de engolir. No baralho comum, ainda hoje existe como o Diabrete, o Joker. A partir do séc. XVII, nos baralhos de Tarot franceses, cujo mais conhecido vai ser o designado como “de Marselha”, a carta assume a configuração que se universaliza, até hoje: um adulto com barrete na cabeça, de trouxa na ponta do pau que transporta ao ombro, com o olhar perdido em devaneios ou fixando o céu, enquanto que um cão o acompanha e parece incomodá-lo alertá-lo, pois em muitas das representações é mostrado que se aproxima de um precipício. Pode ter na mão uma rosa branca, símbolo de inocência.
Astrologicamente, o Louco corresponde ao elemento Ar, sendo também comum relacioná-lo com o planeta Urano, do altruísmo e da imprevisibilidade. Está associado à letra hebraica ALEPH ou ALEF, o paradoxo de Deus e o Homem. O Número Zero apenas foi “descoberto” recentemente, em Matemática; é um ponto neutro que simboliza o tudo e o nada, a origem de todos os outros números. O título esotérico desta carta de Tarot é “O Espírito do Éter”.
Agir como o Louco, na idade adulta, é geralmente condenado pela comunidade. Está conotado com aqueles que não assumem responsabilidades, que não trabalham, ou que não seguem as regras convenientes ao convívio, tal como está convencionado.
Nesta semana que hoje entra, somos inspirados para aliviar o pensamento e criar condições para olhar a nossa vida sem juízo nem preconceito. O exercício pode parecer simples, mas não o é: exige que estejamos disponíveis para deitar por terra as prioridades antes definidas e olhar para as nossas circunstâncias sob ângulos diferentes, que configurem saídas diversas onde o sentido de dever e obrigação estejam arredados ou simplificados.
Será que, ainda que apenas momentaneamente, somos capazes de rever as nossas opções de vida, sem o peso da carga social ou da culpa, e admitir que tudo pode ser diferente? Será que há âmbitos da nossa vida onde podemos deixar-nos guiar pelo instinto e fazer o que nos apetece, num sentido de realização pessoal e não de transgressão? Será que nos temos dado o direito de ter tempos pessoais em que deixamos fluir o desejo e nos deixamos levar?
Há na tradição da cultura judaico-cristã europeia um peso da culpa, de sentido do pecado e da punição, como se o direito a ganhar a felicidade exigisse o sacrifício. Isto impregna-se na nossa visão da vida e contamina a nossa disposição para a felicidade mais simples.
O Louco não nos diz: vai por aqui, porque sim. Diz: e porque não ir por outro lado? Deixemos que o nosso lado mais inocente e verdadeiro se mostre. O melhor de nós é, muitas vezes, a criança que fomos. Deixemo-la manifestar-se…
Imagem : Tarot de Visconti-Sforza, séc. XV

Clara Days