Por Clara Days
Palavras-chave: vontade; afirmação pessoal; avanço; desapego.

Estamos à beira da transição de 31 de Outubro para 1 de Novembro, data de várias festividades, religiosas e pagãs. Na tradição celta, marcava o início do Inverno e o começo do ano; na cristandade, está relacionado com a celebração dos mortos. Viveremos estes dias inspirados pela energia do Carro, Arcano Maior 7, que representa no Tarot o Princípio do Desapego.
Tal como o recém-nascido tem de se separar da sua mãe pelo corte do cordão umbilical, assim o Carro nos pede que sejamos suficientemente fortes para sairmos da nossa zona de conforto, em busca de novas paragens. Esta é a última carta do primeiro septenário dos Arcanos Maiores, cujo sentido geral se relaciona com o princípio consciente de cada um se afirmar e criar a sua própria estrutura pessoal. Com o Carro, o processo atinge o ponto mais avançado nessa construção: ele marca o tempo de nos individualizarmos e fazermos as nossas escolhas pessoais, pelo afastamento em relação a quem nos criou. O pássaro sai do ninho, para voar em busca do seu próprio alimento e encontrar uma nova morada.
É preciso coragem, para arriscar o desapego. Essa coragem nasce do desconforto e da convicção íntima de que o lugar onde temos estado esgotou o que tinha para nos dar, logo só saindo dali poderemos progredir. Mas trata-se de um processo profundamente solitário.
Cortar amarras e partir em busca do caminho próprio começa com algumas ideias, mas sem destino final concreto. O condutor pega nas rédeas dos animais que puxam o carro, e obriga-os a seguir na direcção que vai escolhendo, em cada momento. Há determinação e auto-controle, mas também uma dose de receio em relação ao que o espera, o que exige que esteja sempre alerta e em modo defensivo. Não olha para trás, para saudosistamente regressar ao passado em busca de refúgio, antes leva dentro de si as aprendizagens que já fez; protege-se do sofrimento criando uma couraça, que evitará que volte a cometer erros que o possam tornar vulnerável.

Esta é uma carta cuja designação se refere ao objecto – carro – e não ao condutor que o controla. Um carro é uma estrutura em movimento, poderemos então dizer que a carta se refere a um processo que se desenrola no tempo. O condutor é apresentado frequentemente como guerreiro armado, uma figura real, e os animais podem ir da dupla de cavalos mais verosímil a criaturas fantásticas ou mitológicas, muito frequentemente esfinges (tal como no Tarot de Rider-Waite, de 1910). A armadura que protege a personagem pode ser quase nada ou uma carapaça total que oculta corpo e rosto, vendo-se apenas o metal com forma humana. É frequente a presença de sinais de realeza ou poder, como coroa, ceptro ou escudo brasonado. Os animais, na maioria dos casos, representam duas possibilidades, duas versões, pois são diferentes na cor (preto e branco, mais frequentemente) e/ou na direcção do olhar, como se apontassem para rumos opostos, ou pelo menos divergentes. No entanto, não se sente tensão na condução do guerreiro: tem o rumo controlado pela vontade, não pela força física. O condutor domina o seu carro e decide o seu caminho.
Esta carta de afirmação pessoal está astrologicamente associado a Caranguejo, signo de água regido pela Lua, que reflecte a ligação ao passado e à família. A letra hebraica que lhe corresponde é CHETH ou CHET, a dinâmica do partir e regressar. O número 7 é utilizado em diferentes culturas como um número especial, base de diversas simbologias: os sete chakras, os sete céus, as sete cores do arco-íris, os sete dias da semana… Título esotérico do arcano: “O Senhor do Triunfo da Luz”.

Nesta semana somos convidados a reflectir sobre as escolhas que fazemos ou que devemos fazer. O Carro ajuda-nos a acreditar que é possível sair da nossa zona de conforto e arriscar perseguir os nossos próprios objectivos, guiados pela vontade e com auto-controle.
O caminho pode parecer incerto, agora, a meta exacta também. Mas é possível partir com base na convicção, confiando que a rota se vá definindo de escolha em escolha, numa atitude consciente e alerta.
É importante que estejamos cientes da bagagem que transportamos dentro dos nossos corações: os erros que já cometemos, as situações que vivemos, tudo o que passou e que nos ensinou. Devemos, no entanto, tomar cuidado, para que essas vivências e lições não nos impeçam de receber o que a vida vai trazer para nós.
O Carro é um caminho, pessoal e consciente. Mas precisamos de manter viva uma certa capacidade de sentir os sinais de fora, os sinais dos tempos, não para que nos desviem da rota, mas para que nos alarguem a percepção das escolhas que temos ao nosso alcance.

Imagem : Tarot Soprafino de Carlo della Rocca – 1810

Clara Days

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