Por Clara Days:
Palavras-chave: paciência; introspecção; caminho; auto-conhecimento.

Não há como fugir de nós próprios: o Eremita vai acompanhar-nos, nesta passagem de ano, data que, apesar de ser apenas no calendário, tem um elevado sentido simbólico para a maioria. Com ele, o Princípio da Introspecção. É importante realçar que tivemos, na semana que acaba,o Dependurado, a pedir transcendência. A relação entre as energias dos dois Arcanos Maiores é feita de silêncio e paciência, o exacto contrário do que costuma acontecer nestas festividades de passagem. É como que nos seja dito que a transição para 2019 pede que façamos um caminho interior e que não sejamos superficiais, em relação a nós próprios.
O Eremita é uma peregrinação íntima, de estação em estação, iluminada pela nossa consciência. Faz-se na noite do nosso isolamento do mundo exterior, em solidão, com o propósito de alumiar cada detalhe, passo a passo. Ao longo do trajecto, podemos encontrar parcelas, vestígios, marcas a que teremos de prestar toda a nossa atenção. Do seu somatório virá o entendimento. Depois da análise, poderá ser possível a síntese.
Ele precisa de paciência e de tempo. Precisa que aceitemos que a sua viagem é um processo longo, solitário, que pode até ser permanente, mas que não se trata de fugir aos outros, antes de ir ao encontro de nós próprios. Permite-nos iluminar, com a luz da consciência, cada sombra, cada medo, cada memória, cada anseio.
Quem sou, de onde venho, para onde vou? As respostas virão fragmentadas, mas farão sentido, se soubermos alinhar o pensamento com a caminhada.

Ele é o velho peregrino, de longas barbas, capuz e bordão, na representação das cartas. Traz numa da mãos a ampulheta do tempo, ou uma pequena lanterna com que orienta os seus passos. Caminha na natureza, sem companhia humana, podendo haver animais silvestres a segui-lo, ou a encontrá-lo; em certos casos, tem o mitológico Cérbero, o cão de três cabeças que guarda as portas do “mundo inferior”, como companheiro. O local é geralmente árido ou inóspito, o cenário maioritariamente nocturno. No ecletismo dos baralhos recentes, podem aparecer outras metáforas visuais, menos alinhadas com a imagem do frade mendicante do cristianismo europeu medieval: ele pode ser o yogi em meditação, a lenta tartaruga, o estudioso debruçado sobre os seus livros, o pirilampo na noite, a coruja sábia…
O Eremita está associado astrologicamente ao signo de Virgem, onde cada pormenor é valorizado. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. Numerologicamente ele é 9, relacionado com o altruísmo e a compreensão. O seu título esotérico: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Vamos entrar em 2019, neste mundo tão cheio de incertezas, virando-nos para nós próprios. O caminho do auto-conhecimento é sempre um processo importante e necessário, ao qual muitas vezes não queremos dar o devido espaço.
É fácil andar virado para fora, ao sabor das modas e das multidões, entretido com o “barulho das luzes”. É possível viver nessa turbulência que não nos dá espaço para o ser, na sociedade do consumo e das redes sociais. Mas sabemos todos que essa superficialidade esconde sempre a nossa verdadeira essência, bem como a nossa razão de ser e de estar.
A introspecção não nos fecha, ensina-nos. Prepara-nos para identificar os padrões que nos fizeram sofrer e que precisam de ser entendidos, para os podermos desactivar e não se repetiram. A solidão que presume pode até ser acompanhada, em certos processos de cariz psicoterapêutica, em que o terapeuta funciona como guia ou mediador. Mas será sempre um processo pessoal e único, que ninguém poderá fazer por nós.
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”, é o mandamento socrático. Que assim seja.

Imagem  : Zillich Tarot, de Christine Zillich, 2018

 Clara Days: