Por Clara Days:

Palavras-chave: movimento; destino; oportunidade; mudança.

Inevitavelmente, como as fases da Lua, como as estações do ano, como o virar das marés, vivemos num Universo onde o Princípio do Movimento e da Expansão são o garante da continuidade. Assim, à escala humana, a nossa vida evolui em ciclos que se sucedem, com altos e baixos, ganhos e perdas, alegrias e tristezas, sucessos e desafios. Inevitavelmente, uns nascerão de outros, sucedendo-se numa busca natural de equilíbrio onde a nossa vontade condiciona os resultados – ou não.
Vem a Roda da Fortuna, ou da Vida, o Arcano Maior 10 do Tarot, lembrar o quanto estamos condicionados pelos acontecimentos à nossa volta, cuja evolução condicionamos também, pois a relação entre destino e livre arbítrio interpenetram-se, aqui. Se a vida é mudança permanente, as nossas decisões interferem sempre nessa mudança, e o destino poderá ser mais o resultado delas do que uma mera sucessão natural dos diferentes acontecimentos que nos afectam.
Claro que haverá sempre momentos profundamente determinantes e sobre os quais não temos qualquer espécie de controle. Desengane-se quem acredita ter o poder de apenas atrair sucesso, pois é uma ideia contra-natura. Então, quando a nossa vida é sacudida por um terramoto, quando um acontecimento nos faz sentir sem chão e tudo o que sonhámos é destruído, a única hipótese que nos resta é fazermos, individualmente, aquilo que os seres vivos sempre fizeram, para sobreviver: teremos que nos adaptar, teremos que ser capazes de rever todos as nossas prioridades em função da nova realidade. E isto significa que, de novo, poderemos tomar decisões que interferem no devir – retomaremos assim a influência no nosso “destino”.

A Roda da Fortuna (em latim, “rota fortunae”) é um conceito oriundo da mitologia romana, popularizado durante a Idade Média, que faz referência à natureza caprichosa do destino. A roda, semelhante à de fiar, pertence à deusa ou Dama Fortuna, vendada, que a faz girar aleatoriamente, mudando assim a posição das pessoas que se encontram sobre ela e dando-lhes boa ou má sorte. Podendo a roda ser equiparada à vida, a pessoa tanto pode estar em cima (bem na sua vida) como de cabeça para baixo (mal…), tudo dependendo do destino ou da sorte (“fortuna”).
É a partir deste mito que as imagens das cartas do Tarot reproduzem a iconografia medieval e renascentista que representa A Dama Fortuna e a sua Roda. Aparece frequentemente acompanhada pelos animais de poder que representam os quatro elementos primordiais da filosofia ocidental (touro, leão, águia, anjo). Não representa necessariamente seres humanos em ascensão e queda, podendo estes estar substituídos por figuras animalescas ou mitológicas. Recentemente, a sua simbologia visual referencia-se a outros sistemas de crenças e princípios, como a ideia de Roda da Vida do budismo. Esta última, a samsara, é dividida em seis partes distintas, sendo que a metade superior estão os “três renascimentos afortunados” e na outra metade os “três renascimentos desafortunados”. A carta também aparece representando os ciclos da natureza, numa acepção mais animista ou pagã.
Este Arcano Maior está associado astrologicamente a Júpiter, Pai dos deuses, planeta da expansão e da indulgência. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O 10 é muito significativo como elemento estruturante das bases matemáticas de organização, para os pitagóricos e os cabalistas. O título esotérico desta carta é “O Senhor das Forças da Vida”.

Vivemos tempos conturbados, em termos mundiais e regionais: há tragédias humanas e ambientais, há crises sociais e políticas que afectam todos, queira-se ou não prestar-lhes atenção. É nesta conjuntura geral que cada um de nós se vai posicionando e adaptando, aceitando como novas verdades o que antes parecia impossível ou altamente improvável de acontecer. As crises do mundo e das sociedades condicionam-nos, certamente – e tudo isso ecoa dentro de nós e exige que nos vamos ajustando, melhor ou pior.
Mas, nesta semana, a energia da Roda inspira-nos a nível pessoal, para que pensemos no que está ao nosso alcance decidir ou fazer para transformarmos as nossas vidas. Em certos momentos, precisamos de parar, recuar e reavaliar a nossa situação, para depois “voltar a jogo” com mais ou melhores “trunfos”.
Não podemos deixar-nos ir no caudal das incertezas e do infortúnio, mesmo quando a vida está mal encaminhada. É preciso que nos agarremos a uma pedra, um tronco, a qualquer coisa que nos segure e nos dê o tempo preciso para podermos avaliar a nossa capacidade de controle. Pode parecer um lugar-comum, mas a Oração da Serenidade faz sempre algum sentido: precisamos da serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, da coragem para modificar aquelas que podemos e da sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.
O que posso fazer por mim? O que preciso de mudar para poder melhorar? O que devo manter, do que posso prescindir? Há sempre uma margem de intervenção ao meu alcance, em menor ou maior escala. Há sempre uma hipótese de fazer escolhas, por muito condicionada que esteja a minha vida. Podem ser detalhes, pequenas mudanças, hábitos novos, ou sonhos para traçar e poder cumprir.
Há sempre uma luz que podemos acender, aqui ou ali, para nos darmos um sentido positivo para onde olhar.

Imagem : Wild Unknown Tarot, de Kim Krans, 2012

Clara Days