Por Clara Days:

Palavras-chave: responsabilidade; decisão; imparcialidade; causa e efeito.

Esta dupla numeração para o Arcano Maior, bem como a diferença de designação, podem prestar-se a confusões. Sempre foi o Arcano Maior 8, até que no baralho de Rider-Waite inverte o lugar com a Força, tornando-se o 11, número de equilíbrio. Tradicionalmente é designado como “Justiça”, mas o Tarot de Crowley chama-lhe “Ajustamento”, o de Osho-Zen “Coragem” (“Breakthrough”) e outros baralhos atribuem nomes-lhe diversos como, por exemplo, “Responsabilidade”. Mas fala sempre, mais ou menos, do mesmo: da busca do equilíbrio e da harmonia nas decisões.
Chamemos-lhe Justiça. É algo que é exercido “para fora”, quando alguém pretende ser imparcial e encontrar soluções que sejam equilibradas e não favoreçam ou desfavoreçam quem o não mereça. Exige um esforço de imparcialidade e a capacidade de avaliar uma situação sem deixar que os sentimentos pessoais interfiram de modo a distorcer a percepção do que se passa. Pede algum distanciamento e muita ponderação.
Chamemos-lhe Ajustamento. Este vem “de dentro”, mas condicionado pelo que se passa fora, pois pede que sejamos capazes de, em diferentes situações, nos adaptarmos a elas. Perante uma realidade nova, todos precisamos de fazer um esforço de ajustamento, pois negar as evidências é uma atitude que pouco adianta e até nos impossibilita de termos alguma margem de decisão realista. A sabedoria está em fazê-lo de um modo respeitador para connosco, que não violente ou traia a nossa essência.
Chamemos-lhe Coragem. Assumir perante outros uma posição de busca de equilíbrio nem sempre é pacífico. Mas é uma vontade que temos de fazer prevalecer, pois resulta do esforço de levar em consideração diferentes sensibilidades, diferentes pontos de vista, querendo buscar uma solução harmoniosa. É preciso coragem para enfrentarmos posições contraditórias, para os quais buscamos harmonia. Não é fácil mediar um conflito.
Chamemos-lhe, finalmente, Responsabilidade. Para sermos justos, para nos ajustarmos, além de mostrarmos coragem, precisamos de ser totalmente responsáveis e dar a cara pelas nossas decisões, assumindo as consequências respectivas. Cada mudança que propomos, cada intervenção na realidade é uma causa que provoca um efeito, e, ao decidir uma, eu assumo a responsabilidade pelo outro.

As imagens das cartas são bastante consistentes e recorrem predominantemente à simbologia da tradição ocidental, na representação de Justiça: uma mulher, empunhando balança e espada, olha de frente para nós, tentando equilibrar os pratos da balança. A assertividade da espada complementa-se com o equilíbrio da balança. Algumas vezes, surge vendada, como no símbolo da Justiça legal, que assim procura evidenciar neutralidade. A personagem pode surgir antes como um ser alado, como anjo ou arcanjo, o que lhe permite estar mais elevada em relação à dimensão humana / parcial da visão dos acontecimentos. Em baralhos mais eclécticos, podem surgir simbologias um pouco diversas, mas este é um Arcano cujas representações visuais são muito consensuais.
A carta da Justiça / Ajustamento é associada astrologicamente ao signo de Balança, regido por Vénus, da busca de equilíbrio e harmonia. O número 8 representa, na numerologia pitagórica, sabedoria e liderança, enquanto que o 11 é um número-mestre, de grande poder. A letra hebraica que lhe está associada é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. Título esotérico deste arcano: a Filha dos Senhores da Verdade ou o Controlador da Balança.

Vivemos tempos de permanente mudança. Em cada momento, há a necessidade de que avaliemos o nosso posicionamento em relação ao mundo em transformação que nos rodeia. Nesta semana, que hoje começa, a energia do Arcano Maior Justiça / Ajustamento inspira-nos para a busca de equilíbrio, levando sempre em conta a realidade das nossas circunstâncias e da evolução dos acontecimentos externos.
Precisamos de ponderação. Precisamos de realismo e de isenção. Precisamos de pôr a busca de harmonia à frente da procura de conforto. Conquistar a harmonia exige coragem e sacrifício, muitas vezes, mas não se trata de fins que justificam os meios, nada disso: trata-se de haver um propósito maior perante o qual precisamos de assumir a nossa humildade e subordinarmo-nos.
Com a Justiça / Ajustamento, somos convocados a nível trans-pessoal, embora haja dimensões internas a levar em consideração, que estarão na base das nossas atitudes e decisões. No entanto, em última análise, será uma semana que nos põe em confronto com o que se passa no mundo exterior e com os outros.
Não é a justiça cega da lei humana, nem a justiça dogmática da religião. É feita de respeito, como também é feita de perdão.
Como me posiciono, para trabalhar no sentido duma harmonia partilhada? Como me ajusto, encaixando-me na realidade, sem trair a minha matriz essencial? No que depender de mim, tenho poder e sou responsável. Posso escolher. Devo escolher o que for mais justo.

Imagem: Tarot The Final Catch, de Rhea Rose e Andriy Zholudyev (ilustrador), 2015

Clara Days