Por Clara Days:

Palavras-chave: Movimento; mudança; oportunidade; karma.

A vida evolui em ciclos, num permanente movimento circular ou em espiral, sendo a sucessão dos acontecimentos uma alternância de altos e baixos, avanços e recuos, luz e sombra… A Roda representa esse modo de evoluir, onde nunca voltamos ao mesmo lugar, ainda que possa parecê-lo. Esta carta baseia-se na ideia tradicional de “destino”, que pode ser encarado como uma inevitabilidade, uma fatalidade, ou como uma consequência das nossas escolhas e actos. Acho que todos sabemos que as duas coisas são verdade, pois muito do que nos acontece na vida depende de forças que não dominamos, embora uma parte deva ser entendida claramente como uma resposta, directa ou indirecta, às decisões que tomámos.
Tudo isto tem relação com o modo como a ciência e a filosofia explicam o Universo. Atentemos nas leis do movimento, expressas por Newton, e, mais particularmente, na terceira, da acção-reacção: “Quando um corpo A exerce sobre um corpo B uma determinada força, o corpo B exerce também uma força sobre A, com a mesma linha da acção, mas de sentido contrário”. Este seria um modo simples de abordar a mensagem da Roda da Fortuna, também designada como Roda da Vida.
Mas vamos mais fundo e procuremos uma outra abordagem, esta mais filosófica, expressa na principal lei budista do Karma, que se refere à relação causa-efeito: “O que damos ao universo é o que o universo nos devolve, mas, se for algo negativo, retornará multiplicado por dez. Isto é, se dermos amor, receberemos amor, mas, se dermos raiva, receberemos a falta de amor multiplicada por dez”.
A carta da Roda da Fortuna representa o Princípio Universal da Mudança. O Tarot de Osho Zen chama-lhe isso mesmo (“Mudança”) o de Crowley apenas “Fortuna”, outros atribuem-lhe nomes como “Retribuição”, “Roda das Reincarnações” ou “Esfinge”.
Até que ponto o que eu decido condiciona o que me acontece? Qual a margem de inevitabilidade que influencia a minha vida? Como se equilibra, no espaço e no tempo, o que sinto como “bom” com aquilo que considero “mau”?

O conceito da Roda da Fortuna, como é representado no Tarot, deriva do mito ancestral europeu que a identifica com as voltas do destino – a Dama Fortuna, vendada, fazia rodar a sua roda de fiar e nela os que subiram na vida caíam, para de novo poderem subir, sendo inevitável depois uma nova queda, e assim sucessivamente. As representações visuais mostram diferentes tipos de personagens, mais humanas ou mais animalescas, em ascensão e queda, presos ou agarrados à grande roda que gira, que por vezes nos surge suportada nos ombros de um homem ou ao lado da mulher que a faz girar. É frequente ser enquadrada pelas quatro bestas simbólicas dos elementos primordiais: touro, leão, águia, anjo.
Os baralhos mais recentes, fruto duma época de cruzamento de filosofias de pensamento ou de espiritualidade, utilizam outros recursos simbólicos, das mais variadas origens, mantendo um elemento circular como figura central. O símbolo da tradição chinesa que representa as energias yin e yang é recorrente; acontece também a associação desta carta à figuração da Árvore da Vida, símbolo de harmonia universal. Surgem ainda rodas que representam a sucessão das estações do ano.
Em Astrologia, a carta da Roda da Fortuna é referenciada a Júpiter, Pai dos deuses, planeta da expansão. O número 10 pode ser reduzido à unidade, mas o seu maior poder simbólico tem a ver com ser a base numérica para a matemática – 10 são os dedos das mãos, seu referente mais provável. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O seu título esotérico: “O Senhor das Forças da Vida”.

Temos então uma semana em que as decisões que tomarmos podem fazer inflectir a sucessão dos acontecimentos futuros. É importante que tenhamos consciência disso pois, do que agora fizermos, poderão vir consequências com maior impacto.
Pode haver também aqui um apelo ao centramento. Quanto mais afastada do centro se der a minha acção, mais turbulência, poderá sofrer. Se eu conseguir estar atento aos sinais da mudança e procurar o ponto de maior equilíbrio possível, próximo do centro do que gira, revelarei mais consciência, e assim terei mais capacidade para evoluir sem perder o controle dos acontecimentos.
Uma coisa é certa: tudo está em transformação e há no horizonte descontinuidades que terei de saber aceitar e enquadrar, para não me sentir perdido.
A mudança é inevitável, posso aliar-me a ela ou tentar contrariá-la. No primeiro caso, há fortes hipóteses de ser bem sucedido. No segundo, corro sérios riscos de ser derrotado pela sucessão dos acontecimentos. Mas tenho o poder de escolher.

Imagem : Ostara Tarot, 4 autoras, desenho de Julia Iredale, 2017

Clara Days